Ernst Udet
(1896 - 1941)




Em uma manhã de junho de 1917, um solitário Albatros D. III alemão fazia uma patrulha sobre a cidade fran cesa de Liearval, em busca de uma balão aliado. O seu piloto, o jovem Leutnant Ernst Udet, um promissor ás da Jasta 15, estava a 15.000 pés de altitude quando avistou um ponto a oeste, que, pouco depois ele identifi-cou como sendo um Spad VII francês.

O piloto germânico virou em sua direção e avançou diretamente contra o caça aliado - que fez a mesma coisa. Passaram velozmente um pelo outro, a pou-cos metros de distância. Udet curvou rapidamente à esquerda, tentando colo-car-se na traseira de seu adversário, mas este, novamente, fazia a mesma ma-nobra. De repente, estavam avançando de novo um contra o outro. Novamente, os dois aviões quase roçaram, escapando por pouco da colisão. A batalha con-tinuou com um piloto rodeando o outro. Nivelavam seus aviões depois de uma curva fechada, e retomavam seus ataques frontais. Depois de uma destas inves tidas Udet passou tão perto do Spad que reconheceu "o rosto estreito e pálido sob o capacete de couro". Seu adversário era, simplesmente, o então maior ás francês, com 54 vitórias, o lendário Charles Guynemer (1894-1917).

Udet compreendeu a gravidade da situação e continuou a lutar. A pós outra in-vestida, ele executou uma curva de Immelmann, tentando rolar de volta sobre o ás francês. Não deu certo: Guynemer percebeu a manobra e, com um looping, afastou-se. Udet fez outra curva fechada mas, quando a terminava, o francês surgiu de repente em sua frente, com seus projéteis rasgando a fuselagem do avião do piloto germânico.

Udet entrou em desespero. Tentava todas as manobras que conseguia, mas nada parecia surtir efeito. No en tanto, de repente, o Spad francês apareceu em sua mira - era sua única chance e ele não a desperdiçaria. O alemão apertou o gatilho e... a arma não disparou!! Tentou de novo e nada. As armas estavam travadas. En-quanto tentava destravar, Udet pensava se não seria hora de abandonar o combate, mas sabia que seria segui do facilmente por Guynemer. Sua única chance era evadir-se dos ataques até que o francês se cansasse.

Enquanto o combate prosseguia, Udet tentava destravar sua arma, es-capando quase que por milagre dos tiros de Guynemer. Por fim, por pu ra irritação, Udet começou a esmurrar suas armas. Nesse momento, Guynemer passou invertido sobre seu avião, vendo o gesto de desespe ro do alemão e entendendo a situação. O francês terminou sua passa-gem, fez a volta e veio direto para Udet, em vôo quase invertido. Udet sabia que estava morto mas, em vez de uma rajada de metralha, tudo que recebeu do ás francês foi um aceno satisfeito. E então o francês se foi, desaparecendo nas nuvens.

A luta de Udet com Guynemer (que mais tarde seria postado como de-saparecido em ação - sendo que o povo francês se recusaria a acredi-tar em sua morte já que seu corpo nunca foi encontrado), entrou para os anais da História da Aviação como um dos maiores duelos aéreos (senão o maior) de todos os tempos, já que raras vezes dois grandes mestres puderam se bater individualmente, pondo em prática todos os seus truques.

Mas também mostra que Udet - que acabaria a I Guerra Mundial como o segundo maior ás alemão (atrás apenas de Manfred von Richthofen)-

via o combate aéreo mais como um duelo entre cavaleiros medievais do que como uma simples matança. Daí o fato, talvez de ser tão popular entre os pilotos do segundo conflito.

Nascido em 26 de abril de 1896, próximo a Munique, na Baviera, Ernst "Erni" Udet cresceu fascinado pelas "máquinas voadoras", chegando até mesmo a integrar o Aeroclube de sua cidade. Quando a I Guerra Mundial eclodiu em agosto de 1914, ele juntou-se à 26ª Divisão de Reserva de Wurtemberg, onde serviria como mensa-geiro - já que ele disponibilizou sua própria motocicleta para exercer a função, a despeito de sua pequena esta tura (tinha pouco mais de 1,50m).

Sonhando em voar, Udet pagou 2.000 marcos para ter aulas de vôo, conseguindo seu brevê em abril de 1915. Promovido a Unter-offizier, ele foi transferido para o Flieger Abteilung 68, na região de St. Quentin, uma unidade de observação, onde voava o Fok-ker E.III. Mas, Udet resistia em atirar contra os adversários, já que a idéia de matar alguém o aterrorizava. Apenas depois de quase ser morto por um avião de observação francês em novem-bro de 1915, ele mudaria de idéia.

No início de 1916 ele passaria a voar como piloto de caça. Desig nado para servir no Jasta 15 (Jagdstaffel 15) , Udet finalmente al-cançaria sua primeira vitória confirmada em 12 de março de 1916 após um combate contra uma formação numericamente superior de inimigos. Condecorado com a Cruz de Ferro de 1ª Classe, ele encerraria aquele ano acrescentando apenas outras duas vitóri-as ao seu score.

O início de 1917 também se mostraria sombrio para Udet que, além de não alcançar quase nenhuma vitória - havia abatido apenas dois outros adversários até o seu encontro com Guynemer narrado acima - via seus com panheiros morrer quase que diariamente. Sua redenção viria com a transferência para o Jasta 37. No final de agosto de 1917, seu score já havia subido para dez vitórias, havia se tornado o comandante de sua unidade, sendo condecorado com a Cruz da Ordem da Casa Real de Hohenzollern em novembro. Ao final de 1917, ele já somava 16 vitórias confirmadas.
Udet (3º da esq-dir) ao lado de seus companheiros de esquadrão durante a I Guerra Mundial.

No início de 1918, Udet seria convidado pelo próprio Man-fred von Richthofen (o Barão Vermelho) para integrar a JG 1 (Jagdgeschwader 1), assumindo o comando do lendário Jasta 11. No comando desta unidade, ele participaria da úl tima grande ofensiva alemã na I Guerra, voando os avança-dos Fokker D. VII.

Sua série de vitórias seria interrompida em 06 de abril de 1918 (quando somava 23 abates) ao ser afastado do front por ordem de Richthofen, em razão de fortes dores nos ou vidos que estavam se tornando crônicas.

Enquanto encontrava-se de repouso, Ernst Udet foi avisa-do da morte de Richthofen (em 21.04.1918) e, dois dias de pois, foi agraciado com a desejada Orden Pour Le Mérite.

Retornando ao front em 20.05.1918, Ernst Udet assumiu o comando do Jasta 4. Voando um Fokker D.VII com a fuselagem vermelha com o apelido de sua namorada Lola Zink ("Lo") e a frase "Du doch nicht" ("Você não, certamente"), iniciou uma feroz "corrida de ases" contra outro ás alemão: Erich Löewenhardt, do Jasta 1.

Em 02.07.1918, o Oberleutnant Udet enfrentaria pela primeira vez, os pilotos do U.S. Army Air Service, abatendo dois Nieuport 28´s. Um dos pilotos, o 2nd Lieutnant Walter Wanamaker, ferido por Udet, foi obrigado a aterrissar nas linhas alemãs. Surpreendentemente, Udet pousou perto do avião do seu adversário, deu a ele um cigarro e ficou conversando até que o auxílio médi-co chegasse. Udet recortou o tecido do leme do avião onde constava o nú- mero de série (N6347), guardando-o como lembrança.

Doze anos depois, quando ambos se reencontraram na Corrida Aérea de Cleveland em 06.09.1931, Udet devolveu a Wanamaker o troféu, que hoje pode ser visto no Museu da Força Aérea Americana em Dayton, Ohio.

Enquanto isso sua competição com Löewenhardt caminhava para um fim trá gico. Em 10.08.1918, quando seu score somava 54 abates (contra 52 de U-det), Löewenhardt morreu quando seu pára-quedas não abriu após uma coli-são com seu Rottenflieger. Já Udet, derrubaria 26 aviões aliados entre julho e setembro de 1918, elevando seu total para 62 vitórias confirmadas. No dia 26.09.1918, após abater dois bombardeiros Airco DH9, ele foi ferido na coxa sendo que encontrava-se no hospital quando o Armistício foi assinado, em novembro do mesmo ano.


Nos anos seguintes à I Guerra Mundial, Udet se tornaria a personifica- ção do aventureiro bon-vivant. Nos anos 20 ele criou sua própria empre-sa aérea e se tornou o mais famoso piloto acrobático do entre-guerras, pilotando um avião construído por ele próprio e chamado de "Flamingo". Amante das mulheres e da bebida, ele se tornaria extremamente popu-lar em exibições nos Estados Unidos (onde tornou-se amigo do maior ás a-mericano da I Guerra, Eddie Rickenbacker), Europa e América Lati na.

Em 1929 ele acompanharia o cameraman Hans Schneeberger em uma viagem no interior da África, sobrevoando (e filmando) regiões onde o ho mem branco jamais estivera antes.

No início dos anos trinta ainda escreve uma biografia intitulada "Mein Flie gerleben" (traduzido para o inglês como "Ás da Cruz de Ferro"), que venderia mais de 600.000 cópias até 1935. Por fim, ele atuaria ain-da (como piloto) em três filmes de Arnold Franck: "O Inferno Branco de Piz Palu" (1929), "Tempestade sobre o Monte Branco (1931) e "S.O.S. Iceberg" (1933).


Nesse meio tempo, Hitler e o Partido Nazista assumem o poder na Alemanha. Udet ignorava a política e até mesmo tinha uma aversão pelos métodos brutais do NSDAP, mas um convite de seu amigo e antigo ás da I Guerra, Hermann Göring mudaria as coisas. Ele ouviu com interesse quando Göring falou-lhe de seus planos de reconstruir a Força Aérea alemã, que havia sido banida pelo Tratado de Versalhes. Em 1934, enquanto da-va aulas de vôo para Erhard Milch, foi convencido de que, como era o maior piloto vivo da Alemanha, suas opi-niões poderiam ser importantes para o desenvolvimento da Luftwaffe.

Em 1934, Udet juntou-se à Luftwaffe. A despeito de suas diferenças com os nazistas, o patriotismo, o desafio de re construir a Força Aérea que ele tanto amava, e o sentimen to de estabilidade financeira e social que um emprego "nor mal" lhe dariam, pesaram em sua decisão. Ingressando como Oberstleutnant, rapidamente ascenderia à patente de Oberst em 1935, assumindo o cargo de Inspetor de Ca- ças e Bombardeiros de Mergulho e tornado-se a principal figura no desenvolvimento do lendário Junkers Ju87 Stuka.

No início de 1938, sob pressão de Göring, Udet torna-se o Generalluftzeugmeister der Luftwaffe (Diretor do Departa-mento Técnico da Luftwaffe), responsável pelo desenvolvi-mento dos novos aviões e armamentos a serem utilizados.

(Esq-dir): Udet, Galland e  Mölders.

A despeito de suas responsabilidades, Udet encontraria tempo para testar pessoalmente os novos aviões, incluindo o Messerschmitt Bf 109, que pilotou em uma corrida aérea sobre os Alpes em 1938.

Controlando mais de 4.000 pessoas e tendo que tomar decisões críticas diariamente, sobre o desenvolvimento de pesquisas e projetos, suprimentos, questões financeiras, etc., Udet foi se tornando uma pessoa deprimida com a vida de executivo - algo que ia contra sua natureza. O início da II Guerra Mundial, em setembro de 1939 apenas complicou mais ainda sua situação.

Além disso, Erhard Milch - então Staatssekretär der Luftfahrt (Secretário de Estado da Aeronáutica) e Generalinspekteur der Luftwaffe (Inspetor Geral da Luftwaffe) - começou a entrar em atrito com o já General der Flieger Udet, procurando minar sua reputação perante Göring. Mas, ao menos aos olhos de Hitler, ele continuava a ser um herói: em 21.06.1940 ele era um dos poucos presentes na rendição da França e, um mês de-pois, foi condecorado com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro e promo vido a Generaloberst.

A despeito de ser visto como uma referência e um verdadeiro herói pelos jovens pilotos da Luftwaffe, como Werner Mölders, Adolf Galland, Gün-ther Lutzöw e Günther von Maltzahn, o desgaste com Göring e Milch foi aumentando, ainda mais depois do fracasso na Batalha da Inglaterra. So frendo de insônia, bebendo e fumando muito, Udet parecia esgotado. A invasão da URSS em junho de 1941, apenas piorou o quadro. Embora te nha tentado renunciar, em agosto, Göring o impediu, alegando que isso geraria uma má publicidade.

A gota d´água veio em 15 de novembro de 1941. Nesse dia, Udet recebeu a visita do Generalmajor August Ploch, seu ex-subordinado, que havia sido transferido para a Frente Russa como punição pelas falhas do De-partamento Técnico. Seria por meio de seu amigo que Udet soube das atrocidades cometidas durante a guer-ra. Dois dias depois, em 17 de novembro de 1941, após beber duas garrafas de conhaque e enquanto falava com sua amante pelo telefone, Udet apontou uma pistola para sua cabeça e disparou. Era o fim de um dos mais brilhantes pilotos da História.

Ernst Udet teve um funeral de chefe de Estado, recebendo homenagens não somente da alta cúpula do Parti-do Nazista (que acobertou o incidente, divulgando que o piloto havia morrido enquanto testava um novo avião), mas também dos jovens pilotos que tão bem soubera inspirar.







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