A principal idéia da seção de veteranos é preservar a história dos soldados que lutaram no maior conflito da humanidade. Uma das alternativas admitidas para se cumprir esse objetivo, é a análise e exposição de itens de militaria que permitam traçar um painel do soldado a quem pertenceu aquelas peças. É justamente o caso que passamos a expor.

Na verdade, embora não sejam itens tão vistosos quanto túnicas, capacetes ou medalhas, os documentos de identificação dos soldados (o Soldbuch e o Wehrpass) são as peças que mais informação podem prestar so-bre a vida de seu proprietário. Segurar um desses documentos nas mãos equivale a vislumbrar toda a carreira de um soldado alemão durante a guerra.

O Soldbuch era o documento que deveria ser carregado com o soldado durante todo o tempo de seu serviço ativo e tem esse nome, pois era mediante sua apresentação que ele conseguia receber seu soldo. Mas, mais do que isso, ele trazia informações sobre condecorações, doenças, treinamentos, etc... Já o Wehrpass funcio nava como um "espelho" do Soldbuch e era fornecido a todo homem em tempo de alistamento, que deveria mantê-lo até os 60 anos de idade. Se fosse convocado para o serviço militar, ele entregava o Wehrpass no se-tor administrativo da unidade na qual estava sendo incorporado, onde ficava arquivado, e recebia o Soldbuch. Contudo, todas as informações referentes ao soldado que eram passadas para o Soldbuch, também iam para o Wehrpass. Como esse último não era carregado pelo soldado, o estado de conservação destes geralmente era melhor.

Para maiores informações, visite a seção de militaria, onde há informações mais detalhadas sobre esses docu mentos.

 

A qualificação civil

Este Wehrpass é o que se convencionou chamar de 2º Modelo, apresentando a águia com as asas abertas segurando a suástica e as letras em alfabeto Sütterlin (ou gótico), medindo 14,5 cm X 10 cm e contendo 52 páginas.

A primeira página traz: o distrito militar ao qual estava vinculado (no caso, Magdeburg), seu Wehrnummer (número de alistamento), o nome do soldado, a data e local da confecção do Wehrpass. O primeiro ponto que chama a atenção é o nome do soldado: Arthur John - que não lembra, a princípio, um nome de origem germânica. Ele não foi incorporado imediatamente no serviço militar, fazendo parte da reserva.

A página seguinte tem a foto do soldado, em trajes civis, presa ao Wehrpass por dois rebites, com sua assinatura logo abaixo. Na página 03, constam seus principais dados civis: nome de família, prenome, data de nascimento - 02.07.1910 -, local de nascimento (Halberstadt, próximo a Dessau), nacionalidade (alemão - Deustches Reich), religião, estado civil (ledig - solteiro), profissão na vida civil (instalador e encanador) e, por fim, filiação. Notem que sua mãe faleceu em 1918 (muito provavelmente durante a epidemia de "gripe espanhola").

A próxima anotação relevante encontra-se na página 05 do livreto. Trata-se de sua avaliação médica, que o considerou apto (tauglich). O exame foi realizado à época da confecção do Wehrpass (06.09.1938), e indica que, como Arthur John não foi incorporado de imediato no serviço militar, ele estaria compondo a chamada Reserva II (Ersatz Reserve II).

 

A serviço da Wehrmacht

Para um colecionador e estudioso, as principais páginas dentro de um Wehrpass são as páginas 12 a 17, que compreendem o Aktiver Wehrdienst, isto é, as datas e unidades em que o titular serviu dentro do Exército (página 12), Força Aérea (13 a 15) ou Marinha (16 e 17). Normalmente a seqüência de unidades é mostrada sem intervalos, listando todos os regimentos no qual o soldado serviu.

No caso de Arthur John, é possível verificar aqui que ele serviu praticamente durante toda a guerra: sua primeira entrada data de 15.12.1939 e a última em 01.04.1945 - lembrando que a guerra acabou em 08 de maio de 1945. Note-se, ainda, que em razão de sua profissão no tempo de paz, John acabou servindo sempre em unidades especializadas: Batalhões Técnicos (Technische Battalion), Seções Técnicas (Technische Abteilung) e Batalhões de Pioneiros (Pionier Battalion), responsáveis por construções, manutenções ou demolições, mesmo sob fogo inimigo.

A página 20 lista as armas para as quais ele recebeu treinamento. A primeira é a onipresente e já esperada carabina Mauser 98k, arma padrão do infante alemão na II Guerra Mundial. Já a segunda arma trata-se da metralhadora leve tcheca ZB26, que os alemães chamavam de "leichte Maschinengewehr 26 (t)", de ótima qualidade e que foi amplamente usada pelo Exército e pela SS, em razão do grande número que foi adquirido com a anexação da Tchecoslováquia.

A mesma página, no campo 22, ainda o define como mão-de-obra especializada, classificando-o como enca-nador (Klempe-rer), instalador de tubulação de gás (Installateur) e uma terceira habilidade que está ilegível. A página 21 traz os treinamentos e especializações que Arthur John efetuou. Merece destaque a anotação refe-rente ao curso para Oficial Não Comissionado (Unterführerlehrgang) entre 31.05 e 24.07.1943.

Nas páginas 22 e 23 têm-se listadas as promoções de Arthur John: Oberschütze (soldado de 1ª classe, 01.11.1940), Gefreiter (01.03.1941), Obergefreiter (01.04.1942) e, por fim, Unteroffizier (01.04.1944).

Na página 23, no campo 24, estão as anotações de suas condecorações: a Cruz de Mérito de Guerra de 2ª Classe com Espadas (Kriegsverdienstkreuz 2. Klasse mit Schwertern) em 01.09.1944 (note que o escrevente da unidade fez uma anotação errada que, depois, riscou) e a Cruz de Ferro de 2ª Classe (Eiserne Kreuz 2. Klasse) em 15.04.1945 - faltando três semanas para o fim da guerra.

Embora não tão completas quanto as informações contidas na página 12, a página 32 traz anotações interessantes que geralmente, mostram as campanhas nas quais o titular do Wehrpass (e sua unidade) esteve engajado. No caso de Arthur John, ele passou a maior parte da guerra em regiões mais privilegiadas, se comparadas com a Frente Oriental: costa da Bélgica, costa do Canal da Mancha, tropa de ocupação na Holanda e Bélgica, etc...

Contudo, após o desembarque aliado na Normandia (o Dia D, em 06.06.1944), os combates se intensificaram nessa área, com certeza vendo ação contra forças anglo-americanas, o que acabou se refletindo em suas condecorações (ambas conferidas nesse período).

 

Outras Informações

A página 35 do Wehrpass dá conta das ocorrências médicas na carreira militar de Arthur John. Constam duas passagens por hospitais: 1ª) em 03.04.1941, onde, após o exame, ele foi considerado apto para servir apenas em guarnições em campo (Q.V.F.) e 2ª) em 23.09.1941, dá conta que John estava apto para combate (K.V.). Essa última passagem está listada com mais detalhes na página 46. Na mesma página há um carimbo listando as vacinas que ele recebeu: contra a varíola (Poken) e contra o tifo (em quatro doses).

As páginas 46 e 47 do Wehrpass trazem mais algumas informações muito pessoais de Arthur John. A primeira (campo 38) traz o tamanho de seu equipamento: máscara de gás (nº 1), capacete (57), bibico (56), calçado (29 ½ - na medida européia da época) e grupo sanguíneo (A).

Na mesma página, no campo 39, há o registro de sua internação (25.09.1941) - relacionado à anotação mencionada acima - por conta de sua saúde: problemas nos pés (código 75 A) - provavelmente "pé de trincheira" - e nos dentes (39 A). Já a página seguinte (foto 19) registra que ele recebeu treinamento em atividades de contra-espionagem (em 19.11.1940).

Por fim, uma última nota: Arthur John sobreviveu à guerra. Anotações sobre morte em combate são feitas no Wehrpass às páginas 34 e 35 e as do seu livreto não trazem qualquer nota nesse sentido. Arthur John cumpriu seu dever e retornou vivo ao seu lar. E, aqui, recontamos sua história.

Insígnias na fuselagem
Glossário de termos alemães.