"Voando um Junkers Ju87 com canhões de 37mm sob suas asas,
Hermann Neumann duelou com os tanques pesados soviéticos e o violento fogo antiaéreo".


O Ju 87A se tornou operacional no início de 1937 e foi extensivamente testado na Guerra Civil Espanhola. Durante as invasões alemãs da Polônia em 1939 e França em 1940, Ju 87B´s constituíram um componente essencial das táticas da Blitzkrieg, providenciando suporte aéreo acurado para o Exército alemão. No entanto, quando enfrentou oposição aérea determinada na Batalha da Inglaterra, as Sturzkampfgeschwader sofreram pesadas perdas e foram retirados da campanha. Mesmo assim, o Ju 87B ainda era o principal avião de ataque ao solo quando os alemães invadiram a URSS em 22.06.1941.

Mais tarde, modelos Ju 87D foram modificados com acréscimo de blindagem, a adição de dois canhões de 37mm sob as asas e motor maior para se chegar à versão Ju 87G, a variante Panzerknäcker (destruidor de tanques).

Um dos primeiros pilotos de Stuka a servir em um Staffel especializado na destruição de blindados, foi Hermann Neumann. Nesta entrevista, ele descreve algumas de suas 368 missões de combate, durante as quais foi creditado com a destruição de 68 tanques soviéticos e recebeu a Cruz Germânica, sendo até recomendado para a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro.

Onde você nasceu na Alemanha?
Neumann: Eu nasci em 1922 nos Sudetos, que se tornou parte da Checoslováquia quando aquela república foi criada em 1919. Nós vivía-mos em uma pequena cidade chamada Romerstadt em paz com os Checos até cerca de 1937, mas, então, as coisas mudaram. Em nos-sa cidade de apenas 5.000 habitantes eles colocaram cerca de 50 agentes da polícia secreta. Eles começaram a colocar alemães em campos dos quais nunca se retornava. Nós ficamos muito felizes quan do o exército alemão chegou à cidade em 10 de outubro de 1938. Pa-ra nós era muito pessoal. Um homem, que era nosso professor no co-legial e escrevia para uma revista cultural alemã, foi preso com seus dois filhos. Eles só davam a ele folhas de repolho podre para comer e ele tinha que correr para o banheiro. Em sua terceira ida ao banheiro, os guardas, que eram civis e não militares, o espancaram até a morte na frente dos dois filhos.

Quando você se juntou a Luftwaffe?
Neumann: Eu me alistei em 1940 quando eu tinha 17 anos de idade, mas, tive que esperar até 1941 antes que pudesse me juntar a Luftwa-ffe. Eu estava basicamente sozinho, já que meu pai tinha falecido em

Neumann recebendo treinamento de vôo em planadores, 1939.
1934, minha mãe tinha morrido em fevereiro de 1940, dois de meus três irmãos estavam no Exército e uma de minhas duas irmãs tinha emigrado para os EUA. Ambos meus irmãos morreram na Rússia. Eu queria estar na Luftwaffe e voar, então me alistei porque, se você era convocado não saberia para onde seria enviado. Antes de me juntar a Luftwaffe eu tive que passar dois meses em um Arbeitsdienst Abteilung, ou unidade de Serviço de Trabalho, começando em março de 1941. Então, em maio de 1941, eu comecei o treinamento básico na Luftwaffe.

Por que você escolheu a Luftwaffe?
Neumann: Eu tinha passado por treinamento em uma das escolas de vôo planado em 1939. Eu tinha pegado gosto pelo vôo e adorei a experiência.

Neumann no cockpit de um Henschell Hs129 durante seu treinamento, 1943.

Você passou direto para o treinamento de piloto?
Neumann: Não, primeiro nós tínhamos que completar o treinamento básico que consistia no treino de infantaria. Ele durava cerca de três meses. Então nós tivemos que completar o treinamento para a escola de Unteroffizier (escola preparatória de sargentos), que durava outros dois meses. A proposta desta escola era nos tornar líderes naturais.

Depois de tudo completo, nós fomos para a escola de vôo. Eu ainda era um soldado (Flieger) quando comecei a escola de vôo. Quando terminei todo meu treinamento, eu era um Obergefreiter e, mais tarde, me tornei um Unteroffizier.

Onde ficava a escola de vôo?
Neumann: Ficava em Olmutz na Checoslováquia. O aeródromo onde tínhamos as aulas era localizado a cerca de 35km de Prerau.

Quanto tempo durou a escola de vôo?
Neumann: O treinamento inteiro levou dois anos. Eu não conclui meu treinamento até outubro de 1943. O nome de meu grupo era 1041, já que nós havíamos começado em outubro de 1941. O treino para vôo básico durou um pouco mais de um ano. O segundo ano era o treinamento mais avançado.

Isso era muito tempo em uma escola de vôo com uma guerra em andamento.
Neumann: Na verdade não, nessa época era a duração normal do tempo de treinamento para formar um piloto. Meu primeiro avião foi um biplano, o Heinkel He72 Kadett. Então eu passei para o Bücker Bü131 Jungmann, o Bücker Bü133 Jungmeister e o Bücker Bü181 Bestmann. Na época em que conclui meu treinamento, eu já havia pilotado 35 tipos diferentes de avião.

Como a Luftwaffe decidia o que você voaria depois de você termi-nar seu treinamento?
Neumann: Isto dependia do que você queria fazer. Eles perguntavam se você queria ser um piloto de caça ou de bombardeiro. Se você queria ser um piloto de bombardeiro - o que eu não queria - você teria que pas-sar pelo chamado treinamento "C+". Nós estávamos na escola AB24 em Olmutz. O "A" significava treinamento básico que lhe permitia o primeiro vôo solo. O "B" era treinamento em aeronaves mais pesadas, incluindo bimotores, aviões com trem de pouso retrátil, navegação e vôo por instrumentos. O treinamento "C" incluía navegação por rádio e astro nômica. Eu decidi que queria ser piloto de Stuka. Este era o avião ideal para mim.

Por que você quis voar o Stuka?
Neumann: Por que alguém quer andar em uma Harley Davidson? O Stu-ka era um mito dentro da Luftwaffe nessa época. Eu não queria ser um piloto com treino "C" e voar um bombardeiro. Para mim isso era como ser um motorista de ônibus. Algumas pessoas gostam de dirigir um ôni bus e outras um carro rali. O Stuka era um carro de rali. Ele dava a sen sação de ser algo especial.

Alguns Junkers Ju87B Stuka, 1943.

Você sabia que, naquela época da guerra, o Stuka já era considerado obsoleto?
Neumann: Sim, mas ele não era obsoleto para a frente oriental. Você tem que se lembrar que quando eu comecei em 1941, ele ainda era um avião muito especial.

Para onde você foi em seu segundo ano de treinamento?
Neumann: Primeiro eu fui para Reims, onde fiquei um par de semanas e, então, para Paris, em março de 1943. Eu fiquei por lá até outubro. Nesse período eu voei o Henschell Hs129. Eu também tive a oportunidade de voar um North-American P-51 Mustang capturado e sentar como co-piloto em um Boeing B-17. Eu não cheguei a pilotar o B-17, mas estive dentro dele em um vôo. Depois de Paris eu fui à Polônia para mais treinos e, então, para a Iugoslávia, ao sudoeste de Belgrado. Foi ai que eu voei pela primeira vez em um Stuka. Foi o treinamento para aprender a bombardear. Permaneci ali por dois meses e, enfim, fui para a Rússia.

Outra vista de um Stuka armado com os canhões BK37

Quando você finalmente juntou-se a uma unidade de combate?
Neumann: Foi em dezembro de 1943. A unidade à qual me juntei era chamada de 10.(Pz)/SG 1 (10º Staffel - Panzerjäger - da Schlachtgeschwader 1). Nos so comandante era um Staffelkapitän. Éramos uma unidade especializada em destruir blindados e éramos enviados de um lugar para outro no front.

Nossos Stukas eram armados com dois canhões de 37mm. Nós também fazíamos ataques convencionais com bombas além de destruir tanques. Nós lutamos em todo o front leste, do Báltico até a Criméia.

Você se voluntariou para esta unidade ou foi simplesmente designado para ela?
Neumann: Eu me voluntariei. Era o tipo de trabalho que eu queria.

Você chegou a encontrar o Oberst Hans-Ulrich Rudel?
Neumann: Não, eu nunca o encontrei pessoalmente, mas eu tenho certeza que nós voamos juntos em algumas missões. Ele era uma lenda entre os pilotos de Stuka.

Quanta munição cada canhão carregava?
Neumann: Cada um levava 12 cartuchos. A munição era feita especialmente par penetrar em blindagens de 100mm a 125mm de espessura.

Quantos tanques você destruiu?
Neumann: Eu peguei 68 tanques. Desses, cerca de 30 foram destruídos com bombas e o resto com os canhões.

Qual era o seu método preferido de atacar blinda-dos?
Neumann: Dependia. O T-34 tinha uma blindagem inclina da então nós tínhamos que atacá-lo de um ângulo eleva-do, pois assim era muito mais fácil, principalmente pela frente.

Eu considerava o tanque pesado Josef Stalin o mais difí- cil de destruir. Nós o encontramos pela primeira vez no final de 1944. Ele tinha uma blindagem especial, com re-forços de metal sobre a camada normal de proteção. Nos sa munição não conseguia atravessá-la.

O principal alvo de Neumann e seu Stuka: o tanque russo T-34.

Como você atacava o Stalin?
Neumann: Você só conseguia atingi-lo entre a torre e o chassi. Eles não possuíam o reforço neste local. Um piloto de nosso Staffel foi abatido em janeiro de 1945, próximo a uma de nossas unidades de infantaria que tinham destruído um Stalin e, assim, ele teve a chance de inspecioná-lo. Depois disso, nós reajustamos nossas armas para uma distância de 100 metros. Antes elas eram reguladas para 400 metros. Nós tínhamos que voar baixo para conseguir acertar o Stalin no lugar certo. Era um alvo muito pequeno.

O quanto era perigoso lá a cem metros se o tanque explodisse? Você não teria que voar através dos destroços?
Neumann: Depois de disparar nossos canhões nós virávamos para direita ou esquerda, mas não voávamos diretamente sobre o tanque. Uma vez um colega de esquadrão, Feldwebel Ott, estava atirando num tanque pesado russo KV-2 que estava entre uma casa e um celeiro. O KV-2 tinha uma grande torre quadrada e pesada blindagem. Ott mergulhou e disparou, mas nada aconteceu. Então ele disse "Tudo bem, já que ele não explode vou fazer tantos buracos que ele não vai servir para mais nada!". Então ele mergulhou novamente e quando estava bem perto do tanque ele explodiu. A torreta passou por cima de seu canopy. Quando Ott voltou para a base, ele estava tremendo e ficava dizendo "Eu vi a torre por cima de meu cockpit!".

O tanque pesado soviético Josef Stalin I, o mais difícil alvo dos pilotos de Stuka.

Quão baixo você deveria voar para destruir um tan-que?
Neumann: Para o Stalin tínhamos que voar entre 10m e 15m a cerca de 300Km/h. Nós voávamos a essa altitude por cerca de 5s a 10s. Se você os têm em sua mira, você precisa somente de 1s ou 2s. Lembre-se que, para o Stalin, nossos canhões estavam ajustados para 100m, então tínhamos que ficar bem próximos a eles.

Como estava a moral da unidade quando você che-gou em dezembro de 1943?
Neumann: Estava ótima. Nós sabíamos porque estáva-mos lutando. Cada tanque que eu destruía, era um a me-nos que alcançaria a Alemanha. Foi uma luta até o fim.

E o número de baixas?
Neumann: Não era realmente alto quando eu cheguei lá. Nós tínhamos vários pousos forçados, mas a maioria do pessoal conseguia aterrissar atrás das linhas alemãs. O Stuka era uma aeronave robusta. Mais tarde, al-guns dos nossos passaram a voar o Focke-Wulf Fw190F, o qual era armado com foguetes, e eles sofreram pesadas baixas. Eu fui treinado no Fw190 em dezembro de 1943 e janeiro de 1944, mas eu sempre retornava para o Stuka. Com ele nós sempre obtínhamos os melhores resultados na destruição de tanques. O Stuka era lento, mas isso permitia aproximar-se de um tanque à baixa velocidade, o que nos dava tempo para enqua-drá-lo e atingi-lo.

O quão perigoso era o fogo antiaéreo?
Neumann: No fim, a maioria dos tanques russos rebocava uma arma antiaérea de quatro canhões de fogo rápido. Quando nós os atacávamos, a tripulação do tanque saia do blindado e passava a operar o canhão antiaéreo. Não era problema lutar contra um blindado com nossos dois canhões, porém, quando havia 50 tanques ali, havia um monte de armas disparando contra nós. Eu fui abatido seis vezes. Em todas as ocasiões eu consegui aterrissar nas linhas alemãs. O Stuka era um avião de linha de frente, então estávamos sempre próximos às posições amigas. Por essa razão, é que eu consegui executar minhas 368 missões em um curto período de tempo. Algumas de nossas missões duravam apenas 20 minutos. A primeira vez que eu
fui abatido foi em março de 1944...Eu tinha o mais velho e lento avião da unidade. Era um Ju87D-2 e todos os outros tinham modelos mais novos. Eu fui derrubado pelo fogo anti-aéreo russo. Eu fui atingido primeiro na minha asa esquerda e então no motor. Felizmente, eu consegui conduzir o avião de volta às nossas linhas. Eu vi um ótimo lugar para aterrissar atrás da nossa infantaria, mas em frente à nossa artilharia. Enquanto eu me aproximava para pousar eu vi um bunker com canhões e tive que ativar os freios. Isso fez com que o avião batesse com o nariz no chão ao parar. Rapidamente pulei fora, já que a aeronave pegou fogo. O meu artilheiro de ré estava tão nervoso que não conseguia abrir o canopy. Eu voltei até ele para tirá-lo da cabina e os únicos ferimentos que nós sofremos foram queimaduras pequenas. Um dos aviões do nosso esquadrão nos sobrevoou para ver se estava tudo bem e depois de eu acenar, ele partiu. Levamos três dias para alcançar a nossa unidade. No caminho de volta nós pegamos carona com o General Ferdinand Schörner (1892-1973) [Nota: ganhador da Ordem Pour Le Merité e 23º rece bedor dos Brilhantes da Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro].
Após lançar sua bomba, um Stuka retorna para a base em baixa altitude
Ele era famoso por fazer visitas surpresas em algumas unidades e pegar todos aqueles que encontrava e que acreditava não serem necessários para a unidade para colocá-los na infantaria.

Schörner fazia jus a sua reputação draconiana?
Neumann: No caminho para nossa base, o General Schörner disse que nós deveríamos estar na infantaria, já que nós não tínhamos gasolina e não podíamos voar. Eu disse a ele que, sem gasolina, nós não teríamos sido derrubados. Eu também argumentei com ele que eu poderia fazer um trabalho melhor destruindo tanques com meu Stuka do que com um rifle. Ele concordou e nos levou até os portões de nossa base. O pessoal no campo nos viu chegando e nosso comandante cumprimentou Schörner e disse que a unidade estava pronta para a inspeção. Todos estavam muito nervosos por conta da reputação de Schörner. No entanto, seu motorista tirou nossos pára-quedas do carro, o General apertou nossas mãos, acenou para nosso comandante e partiu. Todos na base ficaram muito aliviados. Na missão seguinte eu ataquei a unidade antiaérea que havia me derrubado. Contudo, desta vez nós os atacamos de uma altitude de 5000m, que era muito mais alta do que a altitude de ataque normal. Eu estava armado com uma bomba central e outras sob as asas. Foi um ataque bem sucedido.

Stukas do SG 1 em ataque. O avião de Neumann é o terceiro camuflado, à partir da frente. Ele foi abatido logo após a foto ter sido tirada.

Você já usou seu pára-quedas?
Neumann: Nunca, mesmo tendo tentando durante meu segundo acidente. Nós não éramos ensinados a usar o pára-quedas já que eles esperavam que nós trouxésse-mos o avião de volta. Eu aprendi que o melhor jeito de se fazer um pouso forçado era de lado para que as rodas quebrassem primeiro. Eu usava as rodas como freio. A técnica funcionava muito bem e eu me tornei muito bom nela.

Algum de seus artilheiros de ré foi morto ou ferido?
Neumann: Apenas uma vez, na segunda oportunidade em que fui abatido. Ele era meu primeiro artilheiro de ré e foi na verdade por um erro seu que nós fomos abatidos. Nós tínhamos atingido nosso alvo com as bombas e estávamos retornando para casa a uma altitude muito

baixa de cerca de 15m a 20m. Nossa escolta de caças nessa época era alguns Fw190´s. A maioria deles era pilotada por jovens e inexperientes e então eles normalmente ficavam no lado alemão do front, esperando nosso retorno. Havia uma unidade russa chamada de "Discípulos de Stalin", composta por estudantes de universidades que tinham jurado lutar por Stalin. Eles voavam o Lavochkin La-5 que, de frente, era parecido com um Fw190. Depois de nós já estarmos sobre as posições alemãs, meu navegador falou: "Agora temos nossa escolta novamente. Há um Fw190 logo atrás de mim". Eu disse: "Não é permitido que eles voem desse jeito atrás de nós. Eles deveriam saber disso, mas eles são crianças. Dê uma rajada à frente de seu nariz, assim ele vai embora". Meu artilheiro retrucou, "Se eu fizer isso eu vou acertá-lo com certeza!", e então ele não atirou. Por conta disso, o La-5 ficou uns cem metros de nós e abriu fogo. Sua primeira rajada cortou a mangueira de combustível e atingiu o tanque de gasolina. Eu tinha combustível em todo lugar dentro do cockpit e ele incendiou e meu uniforme ficou em chamas. Para saltar, você precisa estar a pelo menos 1000 pés [330m] para abrir o pára-quedas. Eu consegui subir com aeronave até essa altitude e coloquei o avião de lado. Eu vi meu artilheiro preparando-se para pular, e então disse: "Pule!", mas eu nunca soube se ele saltou porque eu estava próximo de desmaiar. Eu soltei meu sinto de segurança e levantei, mas o combustível atrás de mim incendiou-se e como meu pára-quedas agora estava pegando fogo, eu decidi não pular. Eu pus meu pé direito sobre o pedal esquerdo e comecei a mergulhar lentamente. Eu não me lembro de quase nada depois disso, pois desmaiei. Uma vez que meu canopy estava aberto e eu não estava preso ao cinto, o impacto me jogou para fora do avião. Tudo isso aconteceu às 9:00hs. Eu fiquei estirado no campo até cerca de 19:00hs quando a infantaria me encontrou. Eu não tinha certeza de quem eles eram e então eu saquei minha pistola e estava pronto para me matar, porque os russos não tratavam bem os pilotos capturados. Nós tínhamos encontrado pilotos mortos, amarrados a árvores com marcas de tortura neles.

Por quanto tempo você ficou no hospital?

Neumann: Primeiro eu fui para um hospital próximo a Königsberg na Prússia Oriental. Eu tinha queimaduras em cerca de 65% de meu corpo, uma fratura na espinha, outra no crânio e meu joelho estava destroçado. Eu
ficava no 2º andar enfaixado como uma múmia. Havia tan tas bandagens que só conseguia beber usando canudo. Nós fomos bombardeados pelos russos na segunda noite em que eu estava lá. Nós ficávamos a apenas 100m de uma estação ferroviária, então quando uma bomba atin-gia o hospital, e iniciou um incêndio, um monte de outras bombas começaram a cair sobre nós. Uma delas caiu logo na entrada do hospital e arrancou uma pesada porta de carvalho e suas dobradiças. Essa porta aterrissou em cima da minha cama e ficou suspendida apenas pela estrutura de metal da cama. Outra bomba acertou o quar to atrás de mim e explodiu a parede. Mais uma vez eu fui sortudo, eu rolei para fora da cama e usando meus coto-velos rastejei até chegar ao porão. O hospital estava des-truído e então fomos transferidos de lá para Magdeburg.
Mecânico faz a manutenção de um Kanonenvogel.
Lá o médico começou pensar em amputar minha perna esquerda, mas eu não deixei. Em outubro eles esta-vam precisando de mais leitos e eu ofereci o meu. O médico me disse que estava louco, mas meia hora de-pois ele voltou e perguntou se eu estava falando sério. Eu disse a ele que sim e ele me deu alta. Eu fui abatido em 24.06.1944 e não deixou o hospital até 03.10.1944.

Você voltou direto para o combate?
Neumann: Não, havia um grupo de recuperação para onde todos os pilotos saídos do hospital deveriam ir antes que pudessem retornar a suas unidades. Nós tínhamos que passar por um médico que determinava se nós estávamos aptos a voar novamente. O primeiro médico disse que eu não estava, mas dia seguinte havia um médico diferente. Este era um piloto e eu consegui convencê-lo a me deixar voar. Em 01.12.1944, eu estava de volta a minha unidade, embora ainda tivesse que usar uma bengala para andar.

Onde sua unidade estava quando você retornou?
Neumann: Eles estavam em Schippenbeil, na Prússia Oriental. Nós nos movíamos muito porque éramos uma unidade especial. Fui aí que eu tive meu treinamento no Fw190. Então depois de terminarmos o treinamento, retornamos aos nossos Stukas e voamos algumas missões a partir desse local. Como nosso esquadrão de nove Stukas estava destruindo mais tanques do que qualquer outro grupo de seu tamanho era duro para eles nos convencer a voar outro tipo de avião.

Junkers Ju87D Stukas preparam-se para decolagem.

Quatro dias antes de você ser abatido, um atentado à bomba foi feito a Adolf Hitler. Você ouviu alguma coisa sobre isso? E o que você pensou?
Neumann: Ah! Sim, nós ficamos sabendo. Eu achava que eles tinham ficado loucos. Você tem que lembrar que eu era um mero Feldwebel e não entendia nada de política. Eu só não conseguia entender porque alguém queria ma-tar o líder de nosso país.

Quando você percebeu que a Alemanha não ganharia a guerra?
Neumann: Foi no final de 1944 ou início de 1945. Só um milagre salvaria a Alemanha daquele momento.

O que você ouviu sobre as "Armas Milagrosas?"
Neumann: Ah, nós ouvíamos muito, mas sempre ficávamos esperando. Nós tínhamos algumas, como a V-1, o foguete V-2 e o caça a jato Messerschmitt Me262.

Você sabia dos Campos de Concentração?
Neumann: Ah! Sim. Nós sabíamos sobre eles. Mas as coisas realmente ruins não começaram até a metade da guerra. Nós não sabíamos o que realmente acontecia dentro deles. Para nós aqueles campos estavam sendo usados para isolar pessoas perigosas.

O que você fez para ganhar suas medalhas?
Neumann: Depois de 20 missões eu recebi a Cruz de Ferro de 2ª Classe e, depois de 50 ou 60 missões, eu ganhei a Cruz de Ferro de 1ª Classe, que foi entregue enquanto eu estava no hospital em Magdeburg. Mais tarde, eu fui condecorado com a Cruz Germânica em Ouro por destruir 60 tanques. Era uma condecoração intermediária enquanto eu estava esperando pela minha Cruz de Cavaleiro. A papelada havia sido encaminha-da, mas eu nunca a recebi.

Quanto tempo você levou para destruir 60 tanques?
Neumann:
Eu tinha talvez uns 30 tanques creditados quando eu fui para o hospital. Então eu peguei a maioria deles de dezembro de 1944 em diante. Durante a última parte da guerra, no Norte, os russos tinham tanques em todos os lugares. Nossa unidade destruía de 20 a 30 tan ques por dia, apenas usando o Stuka. Era um cemitério de tanques naquela área. Mas parecia que no dia seguin-te 50 outros novos. Nós paramos de contar o número de tanques que destruíamos. Uma vez, eu destruí três tan-ques em uma única passada, mas foi realmente um aci-dente. Os três tanques estavam enfileirados em uma vila e eu me alinhei com o último deles. Meu capitão voava ao meu lado. Eu abri fogo no último deles e o destruí, mas meus canhões não pararam de atirar, então eu apon
Sucesso! Um T-34 atacado por Stukas jaz destruído no campo de batalha, 1944.
tei no próximo, o destruí e, então, virei no último e o acertei também.Meu capitão ficou satisfeito, mas aborre-cido, porque toda vez que ele ia apontar em um dos blindados eu o destruía.

Por que você não teve um artilheiro de ré na sua última missão?
Neumann: Eles pediram por voluntários para uma missão especial. Eles queriam apenas pilotos e não precisavam de artilheiros. Eu estava numa base aérea ao norte de Berlim. Eles nos disseram que o exército russo estava na margem leste do rio Oder e que queriam montar um grupo de pilotos que deveriam destruir as pontes remanescentes sobre o rio desde da fronteira tcheca até o mar Báltico. Assim, estúpido como eu era, eu me voluntariei junto com o Leutnant Hans Lenz. Nós dois fomos para um aeroporto perto de Juterbog, que fica perto de Altes Lager.

Eu pensava que o Exército Alemão destruiu todas as pontes permanentes sobre o rio Oder...
Neumann: Não, eles não tinham. Depois que nós chegamos no aeroporto fomos tratados como reis. Recebemos chocolates e todo tipo de comida. Havia 50 de nós. Eles nos disseram que se os Exércitos Russos começassem a atravessar o rio Oder, nós deveríamos destruir as pontes para pará-los.

Eram pontes permanentes ao invés de provisórias?
Neumann: Está correto. Nós éramos os únicos voando Stukas e então os todos demais estavam carregando bombas já armadas. Nossos Stukas levavam bombas que só se armavam após serem lançadas do avião. Os demais estavam pilotando Me109´s ou Fw190´s...A parte estranha é que eu nunca li nada sobre essa missão em nenhum lugar. Como nós éramos as aeronaves mais lentas, nós decolamos às 19:05hs do dia 16.04.1945, o mesmo dia em que os russos iniciaram sua ofensiva final. Nós estávamos carregando bombas de 900kg, enquanto os caças tinham, eu acho, bombas de 550kg.

Você teve alguma escolta de caças nessa missão?
Neumann: Sim, para nós dois haviam oito Me109´s. No entanto, quando o Leutnant Lenz estava em seu Stuka pronto para decolar, ele olhou para baixo e viu que sua bomba estava armada. Se ele tivesse ligado seu motor a bomba teria explodido. Ele saiu lentamente de seu avião e eles empurraram meu avião, que estava estacio- nado próximo do dele, para longe. Assim, eu comecei a missão sozinho com todos os oito caças...Em razão disso, eu decolei mais tarde do que eu havia planejado, por volta das 19:50hs. Eu voei para meu alvo, que era uma ponte em Aurith, ao sul de Frankfurt am Oder. Quando eu cheguei lá, o sol já estava se pondo.
Outra vista de um Ju-87G Panzerjäger. Não foi um longo vôo, tendo durado cerca de 20 minutos. Antes que chegássemos lá, eu dispensei minha escolta. Quando eu avistei a ponte, eu estava a 6.000m de altitu-de, eu fui para o mergulho e soltei minha bomba. Eles não souberam, o que os atingiu! Aquela foi também a única vez que eu apaguei por conta da Força G. Quando eu me recuperei, eu vi a ponte caindo. Se você olhar no mapa da Alemanha hoje em dia, você notará que a ponte não foi reconstruída a despeito da rodovia ainda ir até a margem do rio. Depois de nivelar meu vôo eu voltei e ataquei os caminhões russos com meus canhões. Inicial-mente não houve fogo defensivo, pois eles estavam sur-presos. Na terceira passada, eles despertaram e me acer taram no radiador, mas eu ainda tinha uns 10 minutos a
15 minutos de vôo. Isso me permitiu chegar até uma rodovia que ia para Berlim. Já estava escuro a essa altu-ra, e então eu não posso lhe dizer exatamenteonde eu aterrissei. Eu vi as faixas na rodovia e pensei que era uma perfeita pista de pouso. Eu fiz minha aproximação e, no momento final, descobri que a infantaria tinha colocado alguns fios de telefone no centro da pista. Tentei evitá-los e fui parar num barranco de 5m. Eu saí do avião e subi até a rodovia. Um pequeno carro apareceu e eu o parei, era o gerente de um asilo de velhos, ele me levou até sua casa, onde eu passei dois dias. Eles tinham tudo - comida, água, cigarros - mas não tinham gasolina para seu carro. Então nós voltamos para meu avião e tiramos o combustível de seus tanques, colocando-o em grandes garrafões de vidro. Assim, o gerente me levou até Berlim, para que eu pudesse encontrar minha unidade.

Você retornou até o aeroporto de onde você começou a sua última missão?
Neumann: Não, eu os contatei e eles me disseram que a missão estava encerrada, devendo retornar para minha unidade.

Você sabe quantos dos 50 pilotos retornaram?
Neumann: Eu nunca descobri. Eu fui para o norte para tentar achar meus camaradas, mas, no caminho, eu os vi voando par alguma outra base. Eu fui até o aeroporto em Prenzlau, mas ele já tinha sido abandonado. Eu achei um Fw190 em um dos hangares e voei com ele até Neu Brandenberg.

Eles abandonaram o aeroporto, mas deixaram uma aeronave funcionando?
Neumann: Isto também me surpreendeu. Eu fiz toda a checagem, ele estava com bastante combustível e tudo parecia bem. No entanto, eu não o examinei de modo detalhado, já que os russos estavam começando a bom-bardear o aeroporto. Tudo que estava faltando era uma bateria. Eu achei uma, a instalei e tudo funcionou bem. Liguei o motor e decolei. Eu recolhi o trem de pouso, mas ele não funcionou direito. Então eu tentei de novo e ele finalmente recolheu-se. Quando eu cheguei a Neu Brandenberg, e tentei descer as rodas, elas não saíram. Uma baixou e a outra ficou presa. Foi então que eu enten di porque o avião tinha sido deixado para trás. Tive que fazer um pouso forçado na pista, mas correu tudo bem.
Um Stuka "Kanonevogel" da unidade de Neumann
Eu tinha duas dúzias de ovos que eu estava carregando comigo no cockpit e nenhum deles se quebrou duran te a aterrissagem! Não havia ninguém na base, então eu parti em direção à cidade para encontrar uma mulher que tinha me ensinado a voar no Me262.

Quando você aprendeu a voar no Me262?
Neumann: Isso foi em março de 1945, quando eu a conheci. Eu voei o Me262 por cerca de 40 minutos, fazendo três pousos e decolagens. Era um avião muito fácil de voar e muito suave de manobrar.

O que aconteceu depois de você chegar em Neu Brandenberg?
Neumann: Depois de eu encontrar a aviadora, eu a ajudei a enterrar alguma prataria e, então, nós dois começamos a andar em direção ao Oeste para fugir dos russos. Nós estávamos andando em uma rodovia quando um Volkswagen passou por nós. Ela disse "Há alguns uniformes marrons naquele carro. Eles devem ser de uma unidade de trabalhadores, poderiam nos levar até o rio". O carro parou a cerca de 100m à nossa frente, deu meia volta e retornou. Infelizmente eles eram russos. No entanto, eles não me fizeram prisioneiro. Eu dei a eles tudo o que eu tinha -minha arma, meus papeis, etc - e eles se foram. Havia uma floresta por perto e nós decidimos que seria mais seguro se esconder por lá. Nós entramos nela e descobrimos que a população de uma cidade vizinha também estava escondida na floresta. Eles haviam acampado ali por conta dos combates. Eu me livrei de meu uniforme e aquelas pessoas me deram algumas roupas civis. Nós partimos e a levei para casa em Neu Brandenberg. Mas enquanto eu estava lá, os russos me pegaram de novo. Eles me trancaram em um porão e tiraram a maçaneta. Eu apanhei uma chave de fenda que eu encontrei, abri a porta e fugi. Mais tarde, eu me deparei com um outro grupo de russos, cujo jipe tinha derrapado para fora da estrada e atolado. Eu sabia se eu tentasse correr, eles provavelmente atirariam em mim, então eu decidi ajudá-los. Eles falavam um pouco de alemão, então eu pedi a eles para que alguém me ajudasse a desmontar uma cerca próxima. Nós derrubamos a cerca e usamos a madeira para calçar a roda e dar ao jipe alguma tração. Uma vez que o jipe estava arrumado, o oficial russo me perguntou para onde eu queria ir. Eu disse a ele que eu queria ir para a estação de trem. Eu peguei uma carona com eles e, com isso, consegui atravessar todas as barreiras e pontos de checagem. A cidade para onde nós fomos tinha sido guarnecida por uma unidade da SS, mas, depois dos russos chegarem havia apenas um punhado de garotos, nenhum SS. Mesmo assim, os soviéticos na cidade suspeitavam de todos os jovens e prendiam todos aqueles que eles queriam. O Capitão russo me levou direta para a estação de trem. Lá havia um guarda, mas quando eu sai do jipe, o capitão russo apertou minha mão e se despediu e, como o guarda viu tudo isso, ele me deixou em paz. Eu continuei andando ao longo da linha do trem, em direção ao Noroeste e, por fim, cheguei até o setor americano.

O que aconteceu com você depois de chegar no Setor Americano?
Neumann: Eu estava em Heidelberg, mas estavam prendendo os jovens e os despachando para o setor soviético. Eu sabia que eu tinha que fazer algo, ou então seria mandado para lá também. O Exército Americano estava contratando pintores de placas de sinalização. Então, eu me tornei um pintor delas. Isso me deu a melhor identificação que eu poderia ter, que era um cartão de trabalho americano. Eu trabalhei no Quartel General do 7º Exército e, mais tarde, no 3º Exército quando eles mudaram. Foi lá que eu encontrei o General George S. Patton. Eles queriam uma placa para sua escrivaninha e eu fui encarregado de fazê-la. Quando eu terminei, o sargento americano me disse que, como eu a tinha pintado, que eu a levasse para ele. A maioria das pessoas tinha medo dele. Assim, eu peguei a placa e fui mostrar para ele. Meu rosto ainda mostrava sinais das queimaduras e eu ainda usava uma bengala. Ele me perguntou "Onde você recebeu seus ferimentos?". Eu disse a ele e ele me falou para puxar uma cadeira. Nós conversamos por cerca de duas horas e, como meu inglês já era decente suficiente então, eu não precisei de um tradutor. Ele pegou uma garrafa de bebida e me deu um pouco. A parte engraçada é que era uma bebida alemã chamada "Asbach Uralt". Ele me disse que se tivessem deixado por conta dele, ele daria nossas armas de volta e acabaria com o trabalho. "A Rússia é o alvo, não vocês, rapaz" ele me disse. Umas duas semanas mais tarde, ele estava morto. O primeiro rumor que nós ouvimos era que um arame esticado na estrada tinha cortado sua cabeça fora. Existiram um monte de rumores sobre sua morte.

Como você chegou até os Estados Unidos?
Neumann: Minha irmã tinha se mudado para cá antes da guerra. E ela ajudou a emigração minha e de minha esposa.

O que mais lhe marcou na guerra?
Neumann: Provavelmente a segunda vez que eu fui abatido. Foi minha pior experiência, e eu tive muita sorte naquela ocasião.

Nota: Entrevista feita por Ed McCaul em língua inglesa e publicada originalmente na revista "Military History"
de agosto de 2001, pp. 42-49.

 

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