Beretta Modelos 1934/35

A fábrica de armas Pietro Beretta, sediada em Gardonne, Itália, é, com certeza a mais antiga empresa do ramo ainda em atividade nos dias de hoje. Fundada por um armeiro que deu seu nome ao empreendimento, no distante ano de 1680, o nome da empresa se confunde com o próprio desenvolvimento das armas de fogo, principalmente da pistola semi-automática.

Uma empresa verdadeiramente familiar, que continua até hoje sob controle da família Beretta, ela não cessou de crescer ao longo dos séculos e, em 1880, inaugurava sua primeira fábrica de produção moderna. Hoje em dia, dentre seus vários produtos - que incluem desde refina-das e caríssimas espingardas de caça até pistolas de polímero - está a Beretta Modelo 92, que substituiu a venerada Colt M1911 no exército americano e que tam-bém equipa o Exército Brasileiro, sendo produzida sob licença pela Forjas Taurus sob a denominação de PT-92.

Mas toda essa fama e conceito internacionais devem-se a uma pistola surgida nos anos 30 e que foi fundamental para consagrar o nome da empresa mundialmente: a Be-retta Modelo 1934. Robustas, fabricadas com suas par-tes críticas dentro de padrões superiores de espessura e

produtos de uma época onde não havia escassez de bons materiais nem grandes preocupações com custos industriais de mão-de-obra e acabamento, a Beretta Modelo 1934 (e sua “irmã”, a Modelo 1935) chegaram aos nossos dias perfeitamente operacionais e sendo uma das mais conhecidas representantes do reputado e antigo fabricante italiano.

 

Origens e adoção

A primeira aventura da Beretta no campo das pistolas semi-automáticos veio no início da I Guerra Mundial, quando a empresa lançou o Modelo 1915. Destinada a ser uma arma militar que deveria ajudar a suprir a ca-rência de armas de mão do exército italiano, era vista como uma alternativa à complexa Glisenti Modelo 1910 , que era o modelo padrão das forças do Rei Vitor Emmanuel II.

A despeito de usar um calibre que não era tão eficiente - o 9mm Glisenti - a Modelo 1915, rapidamente ganhou adeptos dentro do exército italiano e destaca-se por já apresentar aquela que é a marca registrada da maioria das pistolas da Beretta: a compacticidade, a qualidade dos materiais empregados e o ferrolho aliviado.

Em 1923 foi lançado um modelo aperfeiçoado (com cão externo), mas, por ainda usar a munição 9mm Glisenti, não teve muito sucesso.

Alguns anos mais tarde, surgiu o Modelo 1931 que, exter namente, é idêntico àquele que seria o Modelo 1934, sen do calibrado para a munição 7,65mm Browning (também chamada de .32 ACP). Contudo, essa arma possuía trava de segurança que bloqueava apenas o gatilho, o que a tor

nava extremamente perigosa de se portar com uma bala na câmara. Em razão desse problema, apenas uma pequena quantidade foi vendida para a Marinha italiana.

Sem desistir, no ano de 1934, o projetista-chefe da Beretta, o famoso Túlio Marengoni, aperfeiçoou um novo sistema de travamento para as pistolas Modelo 1931 o qual agora bloqueava também o cão. Com isso, a empresa logrou conseguir um ótimo contrato com o exército italiano, para o fornecimento destas armas no calibre 380 ACP (também conhecido como 9mm Curto), com capacidade para 7 + 1 tiros. Surgia o Modelo 1934.

Esse contrato do exército italiano iniciou-se em julho de 1934, com um pré-pedido do Ministério da Guerra de 650 exemplares para testes de campo. Em 02.08.1935 o mesmo ministério efetua um verdadeiro primeiro pedido de vulto: 150.000 armas. Esse contrato exigia que todas as armas tivessem total intercambialidade de peças en-tre uma pistola e outra, um prazo de entrega que não su-perasse 27 meses e o preço de 138 liras pelo conjunto de uma pistola e três carregadores.

Ainda em 1935, tanto a Força Aérea quanto a Marinha italianas decidiram adotar a mesma arma, mas optando pelo calibre 7,65mm Browning.

Além disso, os carrega-dores - com a capacidade aumen tada para 8 + 1 tiros - deveriam ter uma protuberância que possibilitasse um melhor suporte para o dedo míni-mo da mão (ver foto). Pis tolas nesse calibre e com essa

característica receberam a denominação de Modelo 1935 e, logo após, também as modelo 1934 incorporaram essa melhoria técnica no carregador.

Rapidamente as novas pistolas tornaram-se um sucesso tanto militar quanto comercialmente não só na Europa, mas, também, nos Estados Unidos, onde receberam a denominação de Model 934 e Model 935 respectivamente, quando destinadas à venda civil.

 

Características Técnicas

O projeto das Berettas 34 e 35 é creditado aos engenheiros Pietro Beretta (tetraneto do fundador) e Túlio Marengoni, responsáveis pelos principais desenhos da empresa na primeira metade do século XX. Em todo o design dessas pistolas nota-se incrível preocupação com a simplicidade, compacticidade e o aliviamento de peso sem, contudo, perder-se a robustez necessária para uma arma de uso militar.

A Beretta Modelo 1934 atua no simplíssimo sistema de “blowback”, com a força da explosão do cartucho impulsionando o ferrolho para trás, o qual, no movimento de retorno à frente, coloca novo cartucho na câmara. Não há necessidade de qualquer sistema de retardo na abertura do ferrolho, como ocorre com armas de maior calibre (9mm Luger e .45 ACP, por exemplo), em razão da limitada potência das munições empregadas nos dois modelos.

Como já dito, as armas tinham capacidade para 7+1 tiros (quando em calibre .380ACP) ou 8+1 (no calibre 7,65mm) e os cartuchos eram armazenados em um carregador destacável situado na empunhadura da arma, e que era liberado através de um retém de grandes proporções situ-ado na sua porção inferior (ver foto). Outras característi-cas incluem o cão arredondado, talas de empunhadura feitas em massa plástica preta com as iniciais “P.B.” so-brepostas dentro de um círculo.

Armas extremamente portáteis, as Berettas modelos 34 e 35 pesam pouco mais de 500 gramas, medindo apenas 152mm de comprimento (exatas 6 polegadas), com um cano de 3,4 polegadas (86,3 mm), que é mais do que suficiente para garantir a adequada velocidade e precisão das munições empregadas nas distâncias previstas para seu uso como arma defensiva. Entretanto, as Berettas 34 e 35 apresentam um gatilho de curso extremamente longo, o que dificulta que se obtenha bons agrupamentos no tiro visado.

Por outro lado, as tolerâncias de ajustagem se evidenciam como mínimas mesmo nos exemplares produzidos no final da 2ª Guerra Mundial e a espessura de partes críticas mostra-se como superior àquela realmente necessária, sendo este o principal atributo que confere robustez a essas pistolas.

O ferrolho era “recortado” na parte superior, para permitir o alívio do peso - uma inovação presente desde o modelo 1915. O ferrolho trazia, ainda, as inscrições referentes ao Modelo, calibre e data de fabricação. Desde a ascensão do Partido Fascista ao poder, em 1922, e até a sua que-da, em 1943, a maioria das pistolas Beretta militares Mo delos 34 e 35 possuem duas datas timbradas no lado es querdo do ferrolho: uma no calendário gregoriano e outra no sistema de datação fascista, ou seja, dois últimos al-garismos romanos, cuja contagem se inicia em 1923.

As sim, uma arma fabricada em 1937 trazia o número XV estampado, correspondente ao 15º ano de governo fascis ta (ver foto). Nas armas destinadas ao mercado civil, não existe esse tipo de dupla datação (ver foto).

A trava das pistolas Beretta Modelos 34 e 35 situa-se logo acima do gatilho (ver foto), devendo ser girada 180º para ser ativada/desativada, além de também se prestar para iniciar a desmontagem da arma. Aliás, esse é outro ponto forte dessas pistolas: não existe pistola mais simples de se desmontar, ainda hoje. Depois de se verificar se a arma está descarregada e retirar o carregador, coloca-se a trava na posição de “seguro”, puxasse o ferrolho para trás, travando-o na posição aberto. Em seguida dá-se um empurrão na porção dianteira do cano e esse salta para trás, saindo por cima do ferrolho. Em seguida libera-se o ferrolho que deslizará pela frente, trazendo a mola de recuperação e seu guia (ver foto). Presto! A arma está desmontada para manutenção (ver foto).

As Berettas de dotação militar da era fascista e do fim da II Guerra Mundial são identificáveis pelos bancos de prova que trazem estampados no lado esquerdo do chassis, na parte posterior da empunhadura, logo abaixo do cão. As mais freqüentes são R.E. (“Régio Exército”), A.M. (“Aero-náutica Militare” - nas primeiras pistolas 1935), R.A. (“Ré gia Aeronáutica”), R.M. (“Régia Marina”) e P.S. (“Publica Sicurezza”, segurança pública).

Há, ainda outras marcas que ajudam a datar a e precisar a destinação da arma (ver foto). O número de série é mar cado no lado direito da arma, estando presente no chassi , ferrolho e cano da arma (ver foto).

 

Na guerra e além dela

O advento das Berettas 34 e 35, dentro de sua filosofia de pequenos calibres em pistolas de porte diário por oficiais militares, trouxe à luz a hipótese de que os oficiais da Wehrmacht talvez tenham adotado seus modelos Walther PP e PPK, Mauser HSc, Sauer 38H e outras armas menores em decorrência da impressão causada pelos seus aliados italianos ainda antes da II Guerra Mundial.

Algo não muito conhecido é o fato de que vários oficiais germânicos do período da guerra, em serviço no Mediter râneo e norte da África, chegaram a utilizar pistolas Bere ttas Modelo 1934 e 35, tendo o órgão alemão encarrega-do de listá-las dado sua particular designação a esta ar-ma, denominando-a de “Pistole P 671 (i)”. Embora a mai oria não apresente as características marcas de inspe- ção nazista (Waffenamts) algumas raras podem apresen tar a marca de inspeção alemã (ver foto).

A produção dessas pistolas foi extraordinária: em 1937, apenas três anos após sua adoção pelos oficiais de Be-nito Mussolini, a numeração de série já chegava à casa de 650.000 e, em 1941, atingia a impressionante cifra de 920.000 exemplares fabricados. O principal fator que con tribuiu para essa produção foi a facilidade de fabricação, em razão de sua simplicidade. Várias até mesmo chega-

ram a ser compradas pela Romênia e pela Finlândia, sendo que essas últimas trazem timbradas as letras “SA” dentro de um pequeno retângulo, que significam “Exérci to Finlandês” (ver foto).

Nos anos finais da II Guerra Mundial, a demanda das pistolas Beretta era tão grande e tão apressada que le-vou à inevitável alteração dos padrões de qualidade e acabamento. As armas passaram a não contar mais com um polimento final e a ter uma oxidação que rapidamente se acinzentava. Igualmente muitas pistolas da-quele período não possuem qualquer inscrição do fabricante no ferrolho, sendo marcadas apenas com os tim-bres de destinação militar e o número de série (ver foto).

Quando para exemplares militares, os coldres eram con-feccionados em couro de boa qualidade, com espaço na parte da frente para o carregador sobressalente e possuin do tanto passadores para o cinto quanto presilhas para talabartes. Habitualmente, a grande maioria era na cor marrom, existindo, entretanto, exemplares na cor verde, pelo que se presume que eram destinados a tropas espe cíficas.

Quando portadas por partisans italianos, essas pistolas Beretta eram acondicionadas em coldres de lona, recos-turados, originalmente destinados aos revólveres Colt, Smith & Wesson, Webley e Enfield de uso por tropas a-liadas (ver foto).

No Brasil, elas tornaram-se muito populares em razão do grande número trazido de volta pelos expedicionários da

FEB, que lutaram na península italiana em 1944-45. Mas, também entre as tropas americanas e inglesas, as Berettas eram um troféu de guerra cobiçado, ficando logo a-trás da Luger e da P-38.

Uma vez encerrado o conflito, as Berettas Modelo 34 e 35 voltaram a ser vendidas em grande quantidade para o mercado civil e nos exemplares comerciais nota-se, outra vez, o esmerado acabamento e soberba oxidação existentes no pré-guerra. Enquanto na Europa continuaram a ser comercializadas com as designações de Modelos 934 e 935, na América do Norte foram relançadas com o nome de “Cougar”.

As Berettas 34 e 35 permaneceram em produção comercial até o ano de 1959 (quando foram substituídas pelo Modelo 70) e, nas forças italianas, foram substituídas pelo Modelo 1951, em calibre 9mm Luger. A despeito da idade, as Modelo 1934 e 1935 são, ainda hoje, boas e acessíveis pistolas de defesa, dignas de levarem o nome de um dos mais reputados fabricantes de armas do Mundo.


Dados técnicos
(para a versão em calibre .380ACP)
Fabricantes:
Pietro Beretta
Comprimento total:
152 mm
Comprimento do cano:
95 mm
Calibre:
380 ACP
Peso (descarregada):
660 gramas
Capacidade:
7 cartuchos
Cabos:
Baquelite ou Massa
Miras:
fixas




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