Massacre no Oeste
(O fim da Luftwaffe)

Os temores dos alemães de uma guerra em mais de um front já havia se tornado realidade ainda em setembro de 1943, quando forças anglo-americanas invadiram a Itália, ao cruzar o Estreito de Messina - a partir da Sicília - e ao efetuarem um ataque anfíbio em Salerno , ao sul de Nápoles. A decisão de Adolf Hitler de lutar pelo controle da península italiana era inevitável, caso contrário todo o seu flanco sul ficaria perigosamente exposto. No entanto, rapidamente se tornou aparente que a Wehrmacht não tinha recursos suficientes para esse trabalho.

Embora batalhas terrestres entre o final de 1943 e início de 1944 tivessem atrasado o avanço aliado na Itália, emperrando-o nas montanhas próximas a Cassino e Roma, a Luftwaffe não era forte o suficiente para causar um impacto decisivo. Para se ter uma idéia, no início de 1944, a Luftflotte 2, que era responsável pelo teatro

de guerra italiano, não tinha mais de 370 aviões disponí- veis , dos quais menos de 100 era bombardeiros ou de suporte terrestre.

Mesmo assim, Hitler e Göring não se importavam em sacrificar sua Força Aérea atribuindo-lhe tarefas impossí- veis ou sem sentido. Em 03 de dezembro de 1943 Göring lançou uma ordem de retomada dos ataques aéreos à Grã-Bretanha. Para tanto, uma força de 525 bombardei-ros fora reunida mas os ataques, conhecidos como "Ba-by Blitz", foram desastrosos para a Luftwaffe.

Entre 21 de janeiro e o final de maio de 1944, 29 ataques foram efetuados contra a Inglaterra, durante os quais 3.000 toneladas de bombas foram despejadas, mas a um custo de 329 preciosos aviões perdidos.

Bombardeio à cidade de Cassino e seus arredores, 15 de março de 1944.

Alguns dos ataques foram dirigidos contra portos no sudeste da Inglaterra, em uma tentativa de atrasar os preparativos para a invasão, mas seus resultados foram medíocres e enfrentaram uma pesada resistência antiaérea. No início de junho, a Luftflotte 3 tinha à sua disposição pouco mais de 800 aviões e nenhuma idéia de onde seria lançado o desembarque. Do outro lado do Canal da Mancha, os Aliados possuíam uma força de mais de 7000 aviões, suficientes para assegurar que os ataques seriam conduzidos ao longo de todo o litoral francês, encobrindo o verdadeiro objetivo das forças invasoras: as praias da Normandia.



Dia D: A Invasão da "Fortaleza Europa"

Os resultados foram inevitáveis. Em 06 de junho de 1944, os Anglo-americanos utilizaram sua superioridade aérea para lançar pára-quedistas nos flancos da área de assalto, a fim de apoiar as tropas que desembarcavam no litoral e interditar as linhas de suprimento dos alemães. Ao todo, os aliados voaram mais de 14.000 missões no Dia D, contra apenas 319 vôos da Luftflotte 3. A maioria das tropas invasoras não viram qualquer sinal da Luftwaffe durante aquele dia, ou mesmo nas semanas seguintes.

Mas seria errado dizer que a Luftwaffe não fez nada. Assim que a invasão começou, reforços foram despacha-dos - cerca de 300 caças e 120 bombardeiros, na metade de junho - e tentativas foram feitas para conduzir ataques ao menos contra as forças navais e transportes ancorados na costa. Minas marinhas foram lançadas, principalmente à noite, e bombardeios de alta altitude foram executados, embora sem efeito significativo.

Tropas norte-americanas desembarcam na Normandia.Em agosto, quando os Aliados finalmente romperam as linhas alemãs em Caen e seguiram direção ao interior da França nada pode ser feito pela Luftwaffe para impedir o seu avanço e, em 25 de agosto de 1944, Paris foi libertada Pouco depois, no final de setembro, as tropas anglo-ameri canas já estavam adentrando a Bélgica e alcançando as fronteiras alemãs. Ao mesmo tempo as tropas da Wehrma cht viu o seu feitiço virar-se contra eles: tornaram-se alvo constante da aviação aliada. A maior parte dos blindados que os alemães perderam na Batalha da França foi destruí da pela aviação aliada, em especial os Typhoon e P-47 Thunderbolts equipados com foguetes ar-terra e as baixas eram elevadas. A Luftwaffe mostrava-se incapaz de defen-der as tropas em terra.

Enquanto isso, os Aliados retomavam sua ofensiva de bombardeios à Alemanha. Embora nunca tenham cessado antes e durante as primeiras semanas da invasão, após as tropas anglo-americanas terem firmado sua cabeça-de-ponte nas praias da Normandia, a frota de bombardeiros estava livre para retomar os ataques ao Reich. As defesas aéreas alemãs ainda eram, teoricamente, formidáveis - em 01.10.1944, por exemplo, o número de caças noturnos da Luftwaffe era de 830 aviões - mas os problemas práticos da Luftwaffe eram igualmente complicados. Durante o dia, caças de escolta norte-americanos - agora capazes de voar por todo o território alemão - protegiam os B-17 e B-24 . À noite, novas técnicas desenvolvidas pelos britânicos neutralizavam os radares SN-2 Lichtenstein dos caças noturnos da Luftwaffe, que fez com que os pilotos alemães tivessem que voar às cegas em busca de alvos ocasionais. Mesmo quando a Luftwaffe conseguia obter uma vantagem tecnológica - como com o desenvolvimento dos caças à jato Me 262 e He 162 e do avião-foguete Me 163 - a falta de combustível e de pilotos experientes deixava os Aliados em relativa segurança. Ao final, foram os canhões antiaéreos que impuseram as maiores perdas aos bombardeiros aliados.



Chuva de Bombas sobre Dresden

Os Aliados, cientes da superioridade aérea atingida, adotaram duas estratégias para destruir o Reich de Hitler. De um lado havia os americanos, que eram adeptos dos ataques concentrados nas indústrias-chaves do esforço de guerra alemão, principalmente as refinarias de combustíveis as grandes indústrias metalúrgicas, os meios de transportes e as empresas de aviação. Já a RAF concentrava seus ataques principalmente contra as cidades e os complexos industriais nelas situados que culminou (com a ajuda de alguns bombardeiros diurnos americanos) no controverso bombardeio de Dresden em 13/15 de fevereiro de 1945.

Naquela noite, apesar de todos os infortúnios celebrava-se o Carna-val na cidade. No Circo Sarasini acontecia um espetáculo de gala e foi neste local, por volta das 21:40hs, que os palhaços anunciaram que uma grande formação de bombardeiros dirigindo-se para a cida de havia sido avistada. Mas o público não acreditou... Às 22:00hs, 245 bombardeiros Avro Lancaster tomavam o céu sobre Dresden. Os primeiros morteiros luminosos, lançados para iluminar o alvo, criaram um show pirotécnico que atraiu muitas pessoas, que saí- ram de seus abrigos. Nenhum canhão antiaéreo ainda havia dispa-rado.

Às 22:15hs caíram as primeiras bombas de 4.000kg (de alto explo-sivo), cujo objetivo era destruir as vidraças a fim de permitir que o fogo que viria a seguir se espalhassem com maior facilidade. As bombas incendiárias viriam com a segunda leva de 529 Lancaster, que iniciaram seu ataque às 1:30hs do dia 14 - e seriam completa-das por uma terceira leva despejada por B-17s da 8ª Força Aérea americana por volta do meio-dia. O tripulante de um dos Lancasters da 2ª leva afirmou que não utilizou o equipamento de navegação pois o incêndio era visível à dezenas de quilômetros de distância.
Vista da "cidade" de Dresden após os bombardeios.

Por outro lado, os B-17´s tiveram que utilizar seu sistema de navegação pois as colunas de fumaça negra que subiam a mais de 5 km de altura, transformou o dia em uma "noite" densa de escuridão. Ao todo, mais de 650.000 bombas incendiárias caíram sobre Dresden.

Na cidade, os bombeiros morriam nas chamas ou atingidos por caças de escolta, enquanto centenas de pessoas foram queimadas como palha seca no Mercado central. Outro tantos se afogaram no rio Elba, ao tentar fugir do inferno. A depressão barométrica causada pelo fogo, criou um furacão de chamas que derreteu o asfalto. O incêndio se prolongou por quatro dias e mais de 20 km2 da cidade viraram cinzas. O levantamento das baixas foi dantesco: seriam recolhidas mais de 20.000 alianças, a maioria de cadáveres calcinados irreconhecíveis; foram levantadas cinco grandes piras funerárias em Altmark e foi enterrado à pá um monte de mais de 2 metros de cinzas humanas. Impossível de calcular, o número de vítimas foi estimado em 135.000 pessoas, pelos cálculos mais realistas. Foi um dos maiores crimes praticados em nome da democracia e fez de Dresden um dos maiores massacres aéreos da História - comparável até mesmo à Hiroshima. (saber mais)



A Ofensiva das Ardennes e a Operação Bodenplate

Não era apenas problemas práticos como a falta de combustível ou a inexperiência dos novos pilotos que minavam a Luftwaffe. As decisões estratégicas de Hitler também tiveram um importante papel, desperdiçando os recursos valiosos ainda disponíveis. À medida que os aliados avançavam em direção à Alemanha no outono de 1944, o Führer percebeu uma potencial fraqueza neste avanço já que, enquanto forças anglo-canadenses avançavam em território holandês e os americanos direcionavam-se para a fronteira germânica, a Wehrmacht poderia atacá-los no centro, separando-os e enfraquecendo-os.

Caça-bombardeiro Fw 190 sendo preparado para mais uma surtida.

A região onde este ataque ocorreria seria a floresta das Ardennes, a mesma região onde, em 1940, os Panzers fizeram um fantástico avanço na Blitzkrieg. Hitler con-venceu-se que este sucesso poderia ser repetido, a despeito da diferença de contexto. Para ele, mesmo que os aliados ocidentais não pudessem ser derrota-dos, a Wehrmacht ainda assim ganharia tempo para concentrar reforços contra as tropas soviéticas no Leste.

Era um plano absurdo. O comprometimento das últimas grandes reservas das forças alemãs, tanto no solo quanto no ar, significava que um fracasso seria catastrófico, pois pouco restaria para defender a Alemanha. De qualquer forma, a mobilização secreta de quase 30 divisões (10 das quais blindadas), com o apoio de 2460 aviões, foi impres-

sionante. Assim que os panzer atacassem através do rio Meuse, o plano era de que a Luftwaffe atingisse as forças aéreas táticas aliadas com tal força que os impediria de reagir, ao menos durante os momentos iniciais da ofensiva. Denominada Bodenplatte, esta operação deveria se iniciar em 16.12.1944, na data de início daquilo que os americanos chamaram de "Batalha do Bulge".

Contudo, a operação não correu como o planejado, já que o tempo ruim impediu qualquer vôo de ambos os lados envolvidos nos combates. Aliás, na maior parte da primeira semana de combates nem os alemães e nem os aliados conseguiram empregar seus aviões. A despeito do respeitável avanço alcançado pelos tanques alemães, os americanos conseguiram se recuperar do susto e paralisaram o ataque. Neste momento, o tempo melhorou e esquadrões de caças-bombardeiros aliados caíram sobre os panzers como um enxame. Além disso, suprimentos foram lançados para as tropas americanas sitiadas em Bastogne e, com seus mantimentos se esgotando, os atacantes começaram a ver o seu plano fracassar. Os aviões da Luftwaffe que decolaram em suporte às tropas, encontraram uma resistência feroz e muitos foram perdidos para os caças aliados ou fogo antiaéreo.

Mas Hitler permaneceu convencido que um esforço final ainda era possível. Como resultado, às 9:00hs do dia 01.01.1945, um total de quase 800 caças Me-109´s e Fw-109´s equipados como caças-bombardeiros decolaram para atacar e destruir as base aéreas e os aviões aliados estacionados no noroeste da Europa.

A missão como um todo resultou em fracasso - embo-ra alguns sucesso fossem atingidos isoladamente - sendo que a Luftwaffe perdeu 200 aviões, contra ape-nas 144 aparelhos aliados destruídos, cuja reposição era muito mais fácil.

Um Me 262 abandonado a beira da estrada é observado por soldados norte-americanos.

Com o fim da Operação Bodenplatte, a Luftwaffe no Oeste estava acabada como força de combate efetiva. A falta crônica de combustível para as aeronaves era tal que Geschwaders inteiros eram confinados ao solo, enquanto que os novos aviões produzidos (a maior parte em fábricas que tinham sido dispersadas pelo interior a fim de evitar os bombardeios que atingiam as cidades) não podiam ser entregues devidos aos constantes ataques ao sistema de transporte na Alemanha.

Mesmo que as novas aeronaves chegassem ao front, as chances de serem pilotadas por tripulações devidamente treinadas eram mínimas, já que as escolas de treinamento tinha entrado em colapso. Nestas circunstâncias, havia pouco a ser feito para deter o avanço Aliado e seus ataques aéreos que rapidamente minaram de forma decisiva o Reich. O que havia restado, no entanto, era uma variedade de "armas maravilhosas" , cujas histórias são cheias de oportunidades perdidas e falsas esperanças, e que serviram para ilustrar muitos dos problemas que afligiram toda a Luftwaffe ao longo de sua breve existência.



Conclusão

Mais de 100.000 aviões de todos os tipos foram perdidos pela Luftwaffe entre 1939 e 1945, enquanto 320.000 homens de seus efetivos foram perdidos e 230.000 seriamente feridos. Além disso, não apenas tinha perdido a superioridade aérea em todos os teatros de operações ao final da guerra, mas também muitos de seus aviões haviam sido superados pelos seus equivalentes adversários.

Incapaz de defender os céus sobre a Alemanha, os pilotos da Luftwaffe podiam apenas assistir os bombardeiros aliados destruírem as cidades do Reich; enquanto que também não tinham condições de dar suporte ou mesmo proteger as tropas terrestres durante os meses finais do conflito. Todo este cenário em nada lembrava as campanhas vitoriosas do idos de 1939-1941.

Um Heinkel He 111 em meio aos escombros.As razões para este declínio dramático da capacidade de combate da Luftwaffe torna-se óbvia quando observada em retrospecto. Não há dúvida de que a Força Aérea Alemã de 1939 estava envolta por uma fachada de propaganda política, que a tornava muito mais efetiva do que realmente era. A rápida expansão de 1935-39, embora fantástica em termos numéricos, não foi balanceada, e faltava-lhe uma visão de desenvolvimento de médio e longo prazo para no-vos projetos e estratégias e, assim, várias aeronaves em serviço na Campanha da Polônia permaneceram na linha de frente ao longo de toda a guerra, sendo apenas modifi-cadas e não substituídas. Uma nova geração de caças e bombardeiros que se mostravam promissores no final dos anos 30 e que eram essenciais para que a Alemanha man tivesse a vanguarda tecnológica (o primeiro avião à jato ale
mão voou em agosto de 1939!), nunca se materializaramnas quantidades e nos momentos esperados, o que refletia uma indústria que se descobriu inapta para aten-der às demandas de um conflito em grande escala. Desta forma, assim que as perdas aumentaram e a Blitz-krieg deu lugar a uma longa guerra de desgaste, os novos projetos foram cancelados ou adiados, já que os aviões cujo desenho já estava consagrado podiam ser produzidos em quantidade suficiente.

De igual importância era a natureza destas demandas. A Luftwaffe do pré-guerra foi desenhada essencialmente para apoiar o Exército, através da conquista do espaço aéreo sobre o campo de batalha seguido dos ata ques incessan tes sobre os meios que permitissem qualquer contra-ata-que inimigo.

Contudo, com a guerra avançando, suas tarefas foram am pliadas para incluir o bombardeio de cidades inimigas, ata que às forças inimigas na linha de frente, abastecimento de exércitos sitiados e, por fim, a defesa do espaço aéreo sobre a Alemanha. Para todas estas atividades, a Luftwa-ffe simplesmente não tinha aeronaves adequadas, o que aumentou a pressão sobre os fabricantes de aviões para que adaptassem os projetos já existentes.

Cemitério de aviões.

Um jovem Flieger, membro da Flakhelfer, chora ao ser capturado pelo 9º Exército norte-americano em 03.04.1945.

No entanto, havia limites para a economia alemã, revitalizada por Hitler nos anos 30, que não estava preparada para uma guerra prolongada. As aeronaves continuaram a ser fabricadas até o final da guerra - até mesmo aumentaram a produção a partir de 1942, sob a liderança do Ministro de Armamentos e Munições, Albert Speer, chagando a bater recordes em 1944 - mas os ataques dos bombardeiros anglo-americanos bloquearam os meios de entregá-los às unidades de linha e destruíram os estoques remanescentes de combustível. Mais ainda, em 1945, a Luftwaffe estava incapaz de treinar adequadamente seus pilotos, pois mesmo as Geschwadern destinadas ao treinamento de novas tripulações já haviam sido destruídas.

Assim, a Luftwaffe chega em 1945 conduzida apenas por aqueles que realmente lutaram por ela e pela sua sobrevivência: seus pilotos e as equipes de apoio em terra. Freqüentemente, no pós-guerra, os pilotos Aliados elogiaram seus adversários alemães, devido à sua bravura e destemor ao enfrentar formações de aviões inimigos que os superavam tanto em número como em qualidade. Inúmeros pilotos, ases e nova-tos, tombaram lutando em condições inapropriadas e, muitas vezes, sem qualquer orientação clara do Alto Comando.


Estas lacunas acabaram sendo preenchidas por pilotos que se tornaram líderes entre seus pares, não apenas por suas habilidades em combate como também por possuírem uma visão mais ampla e realista das reais necessidades da Luftwaffe. Diante disso, torna-se claro o porquê da revolta de homens como Adolf Galland, Günther Lützow e Wolfgang Falck contra as ordens e diretivas do OKL no final da guerra mas, à esta altura já era tarde demais.

A Luftwaffe havia sido condenada por aqueles que a criaram sendo que sua reputação perdura na História mais por seus pilotos e por seus feitos homéricos do que por aspectos políticos e ideológicos.

Assim, por mais que neguem os mais céticos e radicais, quando a Luftwaffe voltou a voar em combate, mais de cinqüenta anos depois do Armistício, durante a intervenção da OTAN na Bósnia, nas asas de seus modernos aviões supersônicos ainda repousava a mística que aqueles pilotos construíram naqueles violentos dias nos idos dos distantes anos 40...

O outrora arrogante Hermann Göring, entrega suas medalhas, após se render aos Aliados em 09.05.1945

 

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