Recordes
Werner Mölders
(1913 - 1941)

Oberst
JGr88, JG53 e JG51
~400 missões de combate, 115 vitórias (28 na Inglaterra, 25 Spitfires)
Morto em acidente aéreo (22/11/1941)

"O mais importante para um piloto de caça é
conquistar sua primeira vitória sem muito trauma"


                                                                                                          Werner Mölders


Meio-dia, 23 de novembro de 1941. A Cadeia Nacional de Rádio na Alemanha começa a irradiar as notícias. Enquanto os alemães almoçam em seus apartamentos, cantinas, acampamentos, eles vão ouvindo as principais notícias sobre a guerra. Avanços na Frente Russa, combates no Norte da África, etc... Então, o locutor fez uma breve pausa e falou de forma clara e calma: "O Oberkommando der Wehrmacht anunciou que o General der Jagdflieger, Oberst Mölders, faleceu em um acidente de avião. O acidente ocorreu em uma aeronave que ele não estava pilotando. O Führer ordenou um funeral de Estado para este detentor da mais alta condecoração por bravura, a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho, Espadas e Diamantes."

Todos os que ouviam perderam a respiração. Mölders! Morto! Era simplesmente inconcebível para a população que ele, o sobrevivente de mais de mil combates aéreos e o maior ás da Alemanha, com 115 vitórias, não mais estava vivo. Mas quem era este piloto que, aos vinte e oito anos de idade, havia sido nomeado para um posto tão alto e recebido tantas condecorações?

O primeiro piloto de caça da Segunda Guerra Mundial a capturar a imaginação popular na Alemanha, Werner Mölders era um homem tranquilo, sério, católico praticante e um pensador tático, foi o mais jovem Kommodore da Luftwaffe, o primeiro piloto a bater o recorde de 80 vitórias de Manfred von Richthofen (O lendário Barão Vermelho, ás máximo da I Guerra Mun-
dial), o primeiro a alcançar a marca de 100 vitórias e o primeiro homem na Luftwaffe a ser condecorado com os Diamantes da Cruz de Cavaleiro em 17 de julho de 1941.

Nascido a 18 de março de 1913 em Gelsenkirchen, Werner "Vati" Mölders tinha apenas dois anos quando seu pai morreu nos campos de batalha da I Guerra Mundial. Sua mãe sacrificou-se para criar seus quatro filhos, sempre dentro de um ambiente muito católico, mas conseguiu envia-lo para cursar o Colegial, onde ele se graduou aos 17 anos de idade. Decidido a se tornar um oficial, ele candidatou-se a uma vaga no chamado "Exército de Cem Mil Homens", e passou por uma dura seleção: dos 61 candidatos, apenas três seriam aprovados. Depois de um breve período em treinamento como Pionier (Engenheiro de Combate) do 2º Regimento de Infantaria em Allenstein (Prússia), ele apresentou-se para serviço na Luftwaffe, então em fase de desenvolvimento secreto. Mas ele foi considerado inapto para serviço: em seu primeiro vôo ele foi avassalado por terríveis dores de cabeça e tonturas!

Mas os médicos não contavam com uma das grandes qualidades deste oficial: sua força de vontade. Ele simplesmente trabalhou todas as suas fraquezas de modo a controlar seu corpo. Ele requereu um novo teste e isso lhe foi assegurado. Mölders decolou e fez todo o trajeto; embora ele tenha descido do avião completamente exausto, os médicos o reporta-ram como "apto ao serviço". Daí foi transferido para uma escola de vôo comercial em Cottbus, onde mais uma vez, lutou contra o parecer de vários médicos e os venceu ao solicitar que o seu comandante realizas-se todo o vôo da prova junto dele. Após ver Mölders pilotar, seu coman-dante assegurou-lhe que continuaria no curso.

Após permanecer cerca de um ano aprendendo técnicas de bombardeio de mergulho no Stukageschwader Immelmann em 1935, o então Leutnant Mölders foi transferido para Wiesbaden para ajudar na formação de uma nova Geschwader, desta vez de caças monoposto. Então, em 1936, eclodiu a Guerra Civil espanhola e Hitler decidiu apoiar o general Francisco Franco em oposição aos chamados Republicanos, que possuí
am apoio dos anarquistas e dos comunistas. O regime de Stalin havia proporcionado apoio aéreo, fornecendo vários caças Rata, de aparência um tanto que obsoleta mas muito manobráveis e fortemente armados.

Foi então que a Luftwaffe decidiu formar a Legião Condor (Kondor Legion), recrutando secretamente vários pilotos para atuar junto aos Nacionalistas de Franco. O Oberleutnant Mölders voluntariou-se rapidamente para esta aventura e, quando foi enviado à Espanha, a ele coube suceder um outro piloto que também já estava se tornando famoso na Alemanha: Adolf Galland. Coube a Mölders assumir o 3./JGr. 88 (3º Staffel do Jagdgruppe 88) anteriormente comandado por Galland - e isto ele fez com grande entusiasmo, principalmente após a chegada dos novos BF 109 em 25 de março de 1938. Sua primeira vitória seria alcançada logo na primeira missão a bordo de um destes aviões. No dia seguinte, ele abateria ainda um Curtiss e um Rata.

Promovido a Hauptmann aos 25 anos de idade, Mölders se tornaria o mais bem sucedido piloto alemão na Guerra Civil espanhola, atingindo a marca final de 14 aeronaves abatidas e o tornou um dos "mestres" da aviação de caça alemã. Com o seu retorno a Alemanha em março de 1939, a ele foi dado o comando do 1./JG 53 (1º Staffel da Jagd-geschwader 53 "Pik-As"), uma das unidades de elite da Luftwaffe, ao mesmo tempo em que recebia a Cruz Espanhola em Ouro com Diamantes.

A primeira vitória de Mölders na Segunda Guerra Mundial, viria logo em 20.09.1939, sobre a França, quando abateu um Curtiss Hawk 75A - por esta vitória ele foi condecorado com a Cruz de Ferro de Segunda Classe e, pouco depois, se tornou Gruppenkommandeur do III./JG 53.

Após sua sétima vitória ele receberia a Cruz de Ferro de Primeira Classe e, logo no início da Blitzkrieg, após abater o seu 20º avião inimigo, ele recebeu das mãos do Reichsmarschall Göring a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro, em 29.05.1940 - era o primeiro piloto da Força de Caças a receber esta condecoração.

Abaixo a esquerda podemos ver a Cruz Espanhola em Ouro com Diamantes.

Mas, em 05.06.1940, Mölders foi vítima de um revés: após abater suas 24ª e 25ª vítimas, enquanto orientava pilotos mais jovens de seu Schwarm em um ataque, ele foi surpreendido e forçado a saltar de seu avião. Mölders estava a 60km de suas linhas e foi capturado pelos franceses. Um oficial arrancou sua Cruz de Cavaleiro e ele chegou até mesmo a ser agredido - e este comportamento não cessou até ele exigir uma providência do oficial superior. Ele foi, então, levado à presença do Coronel Dessous da Inteligência do Exército Francês; este oficial ajudou-o a lavar o rosto (muito ensangüentado" e devolveu-lhe sua Cruz de Cavaleiro e outros pertences. Tomaram vinho e o Coronel acabou desculpando-se pelo comportamento de seus homens, e Mölders aceitou o pedido. O fato é que o Coronel Dessous havia visto em Mölders o "Oficial Cavalheiro" por excelência. Ambos se tornaram amigos e mantiveram contato mesmo após a rendição da França e a libertação de Mölders do campo de prisioneiros de Montferrat, no fim de junho de 1940, e a camaradagem entre suas famílias até mesmo suplantou a morte destes dois oficiais.

Adolf Galland (esq.) e Werner Mölders. Autografada por Galland. Em 19.07.1940 Mölders foi promovido a Major e, em 27.07,ele foi desig-nado Geschwaderkommodore da JG 51, liderando-a durante toda a Bata-lha da Inglaterra. Chamado de "Vati" (Papai) pelos seus comandados - devido à preocupação com seus homens - Mölders estava agora enfren-tando os modernos e rápidos Supermarine Spitfires e Hawker Hurricanes pilotados pelos motivadíssimos e bem treinados pilotos da RAF sobre o Canal da Mancha e o sul da Inglaterra.

Logo em sua primeira missão sobre a Inglaterra, Mölders abateria um Spitfire mas foi ferido em seu joelho, tendo conseguido voar de volta à França ocupada.

No final de agosto ele era condecorado por Göring com o Badge de Piloto em Ouro com Diamantes, juntamente com o seu maior rival (e amigo): Adolf Galland. Aliás, à esta altura, os noticiários alemães reportavam, vitória a vitória, a corrida para ser o maior ás da Alemanha, entre Mölders, Galland e Helmut Wick (um ex-aluno de Mölders, agora voando na JG 2).

Em 20.09.1940, Major Mölders reportava sua 40ª vitória. No mesmo dia, ele voou para Berlim a fim de receber as Folhas de Carvalho da Cruz de Cavaleiro, tornando-se o segundo soldado da Wehrmacht a receber tal condecoração. Típico de Mölders, ele não havia comunicado aos seus amigos que receberia a condecoração (eles souberam pelo rádio), a fim de evitar comemorações que deixavam o tímido oficial desconcertado. Quatro dias depois, era a vez de seu rival, Galland, receber a mesma condeco-ração, também depois de obter sua 40ª vitória. Após saber disso, Mölders decolou e abateu seu 41º adversário - afinal, ele era um daqueles pilotos que participava de um combate como quem estava em uma competição esportiva... Sua famosa rivalidade com Galland na Batalha da Inglaterra, elevou sua contagem rapidamente, e em outubro do mesmo ano já acumu-lava um total de 54 vitórias (sem contar as conseguidas na Espanha), voando a bordo dos novos caças Messerschmitt Bf 109E-1 e E-4. Isto por-
Leme do avião de Mölders ornamentado com 55 baixas, em dezembro de 1940.
que Mölders foi um dos maiores atiradores da Luftwaffe e sua pontaria era legendária. Seu único e maior erro foi ter aprovado a substituição dos dois canhões MGFF de 20 mm que equipavam os Bf 109E para um único MG151/15 de 15 mm que disparavam pelo eixo da hélice dos Bf 109F-2.

O Major Hartmann Grasser (103 vitórias, detentor das Folhas de Carvalho), que serviu como Adjutant de Mölders na JG 51 durante a Batalha da Inglaterra e na frente oriental, disse o seguinte a respeito de seu oficial comandante: "Vati era um notável professor e instrutor. Ele tinha o dom especial de ensinar você a lutar no céu. Ele dava uma atenção especial a todos os novos pilotos que chegavam a JG 51, deixando-os em condições de enfrentar os combates aéreos. Vati possuía um talento próprio para as táticas de combate, uma notável imaginação como estrategista. Ele era maduro para sua idade, um analista, homem prático e humanitário; seus comandados eram devotados a ele."

Mas, o mais importante é que juntamente com seu colega Adolf Galland iniciaram e dirigiram uma nova era nas táticas e estratégias de combate aéreo. Eles eram como Oswald Bölcke e Manfred von Richthofen (o Barão Vermelho) na Primeira Guerra Mundial, que introduziram as primeiras táticas de combate da Luftwaffe. Mölders desenvolveu o que se tornaria conhecido mais tarde como a formação "Quatro dedos" (devido a sua semelhança com os quatro dedos da mão quando esticados) ou Schwarm. Seu sucesso como estrategista foi bem ilustrado pelo calibre de seus imitadores. O 1º encontro com os caças da Luftwaffe voando em Schwarm,
foi uma desagradável surpresa para os pilotos aliados, e ambas, RAF e USAAF adotaram subseqüentemente a nova formação ainda na Segunda Guerra Mundial. Décadas mais tarde, em plena era dos jatos, a Schwarm tornou-se conhecida na USAAF como Double Attack System (Sistema duplo de ataque).

Em novembro de 1940 Mölders foi promovido a Oberst-leutnant e, pela primeira vez, abordado por Göring para se tornar General der Jagdflieger, mas ele declinou do convite. Então, em 21 de junho de 1941, "Vati" soube, pelo seu mecânico, que Galland havia se tornado o primeiro soldado alemão a receber as Espadas da Cruz de Cavaleiro. No dia seguinte, após obter sua 73ª vitória, o Oberstleutnant Mölders também foi condecorado com as Schwertern.

Um dia antes os alemães haviam invadido a URSS: era o início da Operação Barbarossa. As ordens recebidas eram claras: "Destruir todos os caças e bombardeiros soviéticos no primeiro assalto. Junto a sua querida JG 51, Mölders cumpriu as ordens perfeitamente: em um único dia eles aba
teram 96 aeronaves russas - 5 das quais creditadas à "Vati". Seus inimigos o temiam tanto, que foram expedidas ordens para se evitar combates contra a JG 51, mas foi em vão. Em 15.07.1941, Mölders abateu sua 100ª e 101ª vítimas. Cem aeronaves abatidas! Ele havia superado os feitos dos principais ases alemães da I Guerra: von Richthofen, Böelcke, Max Immelmann e Ernst Udet e se tornou o primeiro piloto de caça do mundo a superar a mágica marca das 100 vitórias aéreas (ver gráfico). Neste dia ele foi promovido a Oberst e se tornou o primeiro soldado alemão a receber a Cruz de Cavaleiro com Folhas de Carvalho, Espadas e Diamantes.

Na cerimônia em que recebeu os Diamantes, Mölders demonstrou mais uma vez sua coragem e seu bom senso que a educação católica havia lhe dado: quando Hitler perguntou-lhe se tinha um pedido pessoal a fazer, o maior ás do mundo não hesitou e solicitou ao Führer "que cessassem com as per-seguições ao Bispo Católico de Münster", reconhecido por sua oposição ao regime nazista. Um silêncio terrível pairou no ambiente - ninguém fazia este tipo de "exigência" a Hitler! Göring mal conseguia se conter na cadeira e isso criou grandes problemas para o Gauleiter (Governador) da Região, Ernst Kaltenbrunner (enforcado em Nuremberg, em 1946). Após criar grande alvo-roço no quartel general de Hitler (e uma pequena crise de Gabinete), devido às suas Hitler calmamente assegurou-lhe que as Igrejas seriam respeitadas. Mas isto lhe valeu um dossiê na Gestapo...

Pouco depois, Mölders foi apontado, finalmente, General der Jagdflieger e pro ibido de voar em missões de combate. Seus novos deveres incluíam, agora, visitas às Geschwaders, tomada de providências para sanar problemas apon tados pelos outros Geschwaderkommodoren no front, etc. Apenas algumas semanas após assumir o cargo, "Vati" já conseguia vislumbrar os pontos críti cos e as falhas que estavam enfraquecendo lentamente a Jagdwaffe. Ele tam
bém compreendeu que a Blitzkrieg havia falhado na Rússia e que a Alemanha não poderia suportar por muito tempo as grandes perdas de homens e aeronaves.

No dia 22 de novembro de 1941, Mölders estava em visita ao III./JG 77, como General der Jagdflieger, quando recebeu ordens de retornar a Berlim para participar do funeral de Ernst Udet (famoso herói da I Guerra Mundial com 62 vitórias), que cometera suicídio dias antes. Vati decide voar com um bimotor Heinkel He 111. Na condição de simples passageiro decolaramm sem maiores problemas, porém quando já estavam em pleno vôo, um dos motores da aeronave parou de funcionar, e pouco tempo depois ao se aproximarem do campo de pouso de Breslau-Hundsfeld o segundo motor também falhou, fazendo com que a aeronave caísse. Infeliz-mente para a Luftwaffe, Mölders que estava sentado ao lado do piloto, não resistiu aos ferimentos e morreu em decorrência da queda.

Algum tempo depois Vati foi homenageado pela JG 51, cuja unidade recebeu o seu nome "Jagdgeschwader Mölders". O Oberst Werner Mölders havia voado mais 400 missões de combate (cerca de 100 na Espanha), durante as quais obteve 115 vitórias confirmadas (14 das quais na Legião Condor).

 



Bf 109E-3 - Hptm. Werner Mölders, Kommandeur III./JG 53 - Lor/La Selve/França - maio, 1940


Bf 109F-1 - Maj. Werner Mölders, Kommodore JG 51 - St. Inglevert/França - outubro, 1940




Bf 109F-4 - ObLt. Werner Mölders, Kommodore JG 51 - URSS - junho, 1941



Ficha do Piloto
Unidades:
- Jagdgruppe 88 (JGr.88) 
- Jagdgeschwader 53 "Pik-As"
- Staffelkapitän do 3./JG 53 (3.39 - )
- Kommandeur do III./JG 53 (1.11.39 - 5.6.40)
- Jagdgeschwader 51 "Mölders"- Kommodore (27.7.40 - 19.7.41)
Aeronaves:
Messerschmitt Bf 109 séries B,C,D,E e F
Campanhas:
Guerra Civil Espanhola
Blitzkrieg
Batalha da Inglaterra
Frente Oriental
Promoções:
- ??.??.1935 - Leutnant
- ??.??.1937 - Oberleutnant
- ??.??.1938 - Hauptmann
- 19.07.1940 - Major
- ??.11.1940 - Oberstleutnant
- 15.07.1941 - Oberst
Condecorações:
- 07.07.1939 - Cruz Espanhola em Ouro c/ Diamantes
- 20.09.1939 - Cruz de Ferro de 2ª classe
- 03.04.1940 - Cruz de Ferro de 1ª classe
- 29.05.1940 - Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro....................................(54º)
- ??.08.1940 - Badge de piloto em Ouro c/ Diamantes
- 21.09.1940 - Folhas de Carvalho da Cruz de Cavaleiro .............................(2º)
- 22.06.1941 - Espadas da Cruz de Cavaleiro ............................................(2º)
- 15.07.1941 - Diamantes da Cruz de Cavaleiro .........................................(1º)
Na Espanha
Na Espanha
Na Espanha
Na Espanha

 

"Nós eramos apenas pilotos de caça.
Werner Mölders era algo mais."


Generalmajor Dietrich Hrabak









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