Arado Ar 196


Embora tenha exercido uma influência pequena durante a Segunda Guerra Mundial, o Arado Ar 196 foi, ainda assim, uma aeronave importante. Dotado de uma performance respeitável e notavelmente bem armado - normalmente com dois canhões e três metralhadoras - ele serviu ao longo de toda a costa marítima da Europa ocupada por Hitler e foi, também, o avião padrão carregado a bordo dos grandes navios de guerra da Kriegsmarine, sendo que os maiores navios da frota (os encouraçados "Bismarck" e "Tirpitz"), levavam, cada um, nada menos que quatro Ar 196.

O primeiro avião a ser utilizado pela Marinha alemã após a I Guerra Mundial foi o biplano Heinkel He 60. Todas as aeronaves embarcadas de então deveriam ser capazes de alçar vôo a partir de lançamentos de catapulta, provavelmente enquanto o navio estivesse em movimento, e de serem recuperados por guindas-tes após o pouso no mar - mesmo em águas agitadas.

O principal propósito dessas aeronaves embarcadas era o reconhecimento de curto alcance, mais a patru-lha costeira, resgate de pilotos abatidos e até mesmo o suporte a operações terrestres (por exemplo, em missões contra partisans) tornaram-se ao longo da guerra importantes atividades secundárias.

Arado Ar196 é içado à bordo do encouraçado "Tirpitz".


Ar 196A-1Em 1936 era claro que o He 60 estava se tornando obsoleto. A própria Heinkel foi convidada a projetar seu sucessor, mas o avião resultante, o He 114 mos-trou-se um fracasso, com sérios problemas de hidrodi nâmica e outros defeitos de vôo. Depois de prolonga-dos testes e modificações que foram ineficazes, deci diu-se, em outubro de 1936, lançar uma concorrência pública, com especificações completamente novas e esperar que as empresas Focke-Wulf e a Arado Flug-zeugwerke oferecessem melhores projetos. A primeira produziu um biplano convencional, o Fw 62, enquanto a Arado apresentou um monoplano de asa baixa.

A Kriegsmarine e o Reichsluftfahrministerium (Ministé- rio da Aeronáutica) concordaram que a aeronave deve-ria utilizar um motor radial BMW 132K de nove cilin-dros, com potência de 960 HP (o mesmo motor que o malfadado He 114). Foi ainda estipulado que os protóti pos deveriam ser construídos em duas versões: a pri-meira com um par de flutuadores gêmeos no lugar do trem de pouso e a segunda com um único flutuador central e dois pequenos sob as asas.

As duas empresas rivais rapidamente submeteram se-us projetos e estimativa de preço de produção e a pro-

posta da Arado foi considerada a mais apropriada. Dois protótipos do Fw 62 foram encomendados como segu-rança, mas à Arado foram solicitados quatro protótipos.

O protótipo Ar 196 V3 com três flutuadores.Os primeiros dois protótipos (V1 e V2) eram equipados com os flutuadores gêmeos e denominados série A, en quanto que os protótipos V3 e V4 - a série B - era a ver são com três flutuadores. Todos foram registrados co-mo aeronaves civis (respectivamente D-IEHK, IHQI, ILR E e OVMB). Algumas características desse primeiros aparelhos eram apenas provisórias: Os motores ainda eram o BMW 132Dc de 880 H, usando uma hélice de duas pás Schwarz. A primeira aeronave tinha dois es-capamentos saindo pelo lado esquerdo da fuselagem, sendo que posteriormente o arranjo foi mudado para dois tubos curtos saindo pela parte ventral do avião.

No entanto, no geral os protótipos precisavam apenas de mínimas modificações, sendo que a única mudan- ça estética visível entre os dois primeiros protótipos foi a eliminação do contrapeso no topo da cauda do avião e um pequeno redesenho do leme. O V1 mais tarde foi também equipado com uma hélice de três pás VDM, de velocidade constante, que se tornaria o padrão para o modelo de produção.

O V2 e o V3 eram muito similares, com exceção do arranjo dos flutuadores. Já o protótipo V4 foi o primei-

ro a ser equipado com armamento, no caso um canhão MG FF de 20mm em cada asa alimentados por tam-bores de 60 cartuchos - que criaram uma "bolha" embaixo da asa - além de uma metralhadora MG 17 de 7,92mm no lado direito da fuselagem, com o cano saindo pelo anel de refrigeração do motor (localizado na posição "oito horas" quando se olha o motor de frente). Fora isso, esse protótipo tinha instalado um suporte sob cada asa que permitiam a instalação de uma bomba SC50 de 50kg.

 

Detalhes Técnicos

Os quatro protótipos foram cuidadosamente testados em Travemünde entre 1937-38, tendo sido difícil decidir qual seria o arranjo de flutuadores mais adequado. Aquele com o flutuador central parecia mais adequado para operações em águas agitadas, mas os estabilizadores menores dessa versão podiam facilmente afundar na água durante a decolagem, resultando em um arrasto assimétrico que poderia ser problemático. Em conse-qüência, embora um quinto protótipo tenha sido construído, decidiu-se pela padronização do arranjo de um par de flutuadores idênticos. Esse seria o arranjo usado já na série de dez aviões de pré-produção, o Ar 196A-0, que foram entregues em novembro de 1938.

Estruturalmente, o Ar 196, era tão convencional a ponto de parecer tradicional. Enquanto as asas eram fabricadas em duas chapas de metal, a fuselagem era construída em torno de uma base feita de tubos de aço, suportada por uma cobertura de liga leve entrelaçada, que estendia-se desde a carenagem do motor até o fim do cockpit; a partir daí a cobertura era de tecido. Os flutuadores eram feitos de uma liga leve chamada Alclad e o combustível era carregado em dois tanques de 300 litros - um em cada flutuador - com os tubos de alimentação do motor passando por dentro dos suportes dianteiros das bóias. Esses também formavam uma escada que era usada pela tripulação para subir na aeronave. As asas podiam ser dobradas, desde que desconectadas do suporte dos flutuadores.

A tripulação era composta de um piloto e de um artilhei-ro-observador. Este último geralmente ficava de costas para o piloto, voltado para a ré do avião e, como não ha-via tanques de combustível na cabina, seus assentos eram bem próximos.

Uma capota envidraçada cobria ambas as posições, sen do que a porção do piloto deslizava para trás e a do ob-servador, embora também fosse completamente fechada a princípio, posteriormente, nos exemplares de produção, passaram a ser parcialmente abertos. Contudo os defleto res instalados, eliminavam qualquer eventual desconforto causado pelo vento, além de tornar mais fácil o manuseio e disparo da metralhadora de ré. Essa incorporação ao armamento deu-se a partir do modelo Ar 196A-1, que adotou uma única metralhadora MG15 de 7,92mm com sete carregadores duplos de tambor de 75 tiros cada um.

Ar 196A-3

Curiosamente, na primeira série de produção o armamento dianteiro foi retirado, mas os suportes de bombas foram mantidos. O motor foi finalmente mudado para o definitivo BMW 132, conectado a uma hélice tripá feita pela Schwarz (sem cume sobre o eixo). Uma grande quantidade de equipamentos adicionais foram incorpora-dos, incluindo um carretel reforçado para catapulta, grande recipientes de fumaça instalados nos flutuadores, rações de emergência e sinalizadores na parte traseira das bóias.

 

Serviço em Alto-Mar

Desde o início o Ar 196A foi extremamente popular. Sua performance era adequada, sua manobrabilidade era soberba tanto na água quanto no ar, com uma mecânica confiável e a visão a partir do cockpit era muito boa a despeito das asas baixas. A entrega dos primeiros vinte aviões da série A-1 começou em junho de 1939. Todo este lote foi encaminhado para os 1./196 e 5./196 Bordenfliegerstaffeln (1º e 5º Staffel de Aeronaves Embarca-das 196).

Um Ar196 com as asas desmontadas sendo puxado para a catapulta de lançamento.

Um dos primeiros Ar 196 a ser enviado ao alto mar insta-lado sobre uma catapulta (e um dos primeiros a entrar em ação na II Guerra Mundial), foi o aparelho designado para o "couraçado-de-bolso" Admiral Graf Spee. Este na-vio zarpou em direção ao Atlântico Sul em 21 de agosto de 1939 e, em 13 de dezembro daquele ano - após ter afundado nove navios mercantes aliados - encontrou três cruzadores (mais antigos e menos armados) da Marinha Real britânica.

Durante a batalha que se seguiu, o comandante alemão, Kapitän zur See Hans Langsdorff, deixou de utilizar seu novo avião para poder direcionar o fogo de seus canhões de 280mm enquanto poderia também sair do alcance do fogo inimigo. Ele preferiu o combate direto, na chamada "Batalha do Rio da Prata", e como resultado dessa falha o Graf Spee foi seriamente danificado no combate - aliás, a primeira salva de tiros dos britânicos atingiu e destruiu

a catapulta utilizada pelos Ar 196 - e, após ter se refugiado, no porto de Montevidéu (Uruguai), a belonave ger-mânica foi afundada por sua própria tripulação e Langsdorff suicidou-se em 17.12.1939.

Nos meses seguintes, novos Ar 196 foram substituindo o He 60 tanto nas unidades de reconhecimento costei-ro quanto nos navios da Kriegsmarine. Embora o rigoroso inverno de 1939-40 tenha atrasado a produção dos aviões em Warnemünde, após a série inicial de 20 aviões A-1, o Ar 196A-2 surgiria em novembro de 1939. Es-sa nova versão deveria preencher uma série de papéis de combate muito maior do que apenas o reconhecimen to embarcado.

Operando a partir de bases costeiras ele deveria ter a capacidade de sobrevoar o Mar do Norte e Mar Báltico, procurando por navios e aviões inimigos - e que pode-riam ser atacados por este pequeno hidroavião. Diante desse novo papel ofensivo, a série A-2 foi equipada com armamento dianteiro. Uma metralhadora MG 17 foi instalada no lado direito do nariz - como no protótipo V4 - e dois canhões MG FF foram colocados de modo a não alterar a configuração da asa com seus carrega-dores de tambor. O piloto poderia utilizar somente a MG 17 se desejasse e, embora a idéia não fosse utili-zá-los com freqüência, os canhões de 20mm davam à
Ar 196A-2
tripulação uma sensação de superioridade, já que o Ar 196 poderia abater qualquer aeronave que tipicamente operava sobre o mar aberto.

Inevitavelmente, o peso do avião foi aumentando, mas ele nunca se tornou um aparelho lento ou difícil de se manusear. Ao longo de 1940, a fábrica da Arado entregaria outros 98 aparelhos, incluindo os primeiros 24 aviões da versão A-4, equipado com um rádio adicional FuG 16Z e armamento dianteiro, e que deveria substi-tuir os aviões embarcados. Outra mudança foi a troca da hélice, agora uma tripá de fabricação VDM, agora com cume sobre o eixo.

Em 26.05.1941, durante sua épica e trágica jornada, o grande encouraçado Bismarck lançou seus quatro Ara dos Ar 196A-4 em uma tentativa de afastar ou destruir o hidroavião Catalina do Comando Costeiro da RAF que estava procurando pelo navio alemão, que se diri-gia para um porto seguro na França ocupada. Eles não foram bem sucedidos e, uma vez localizado, o Bismarck foi atacado por biplanos torpedeiros Sword-fish. Um único torpedo atingiu o leme do gigante navio selando seu destino - ele foi alcançado pela frota britâ nica e afundado em 28 de maio de 1941. Os restos de
um dos Ar 196 foi ainda encontrado a bordo dos destroços do Bismarck durante a expedição submarina organi zada em 2002 pelo cineasta James Cameron.

Por outro lado, em 05.05.1940, dois Ar 196A-2 do 1./Küstenfliegergruppe 706 (1º Staffel do Gruppe Aéreo Cos-teiro 706), sediado na cidade Aalborg na recém-ocupada Dinamarca, avistaram o submarino britânico HMS Seal que tinha sido danificado por uma mina. Impossibilitado de submergir, o submarino tornou-se um alvo in-defeso para as metralhadoras e canhões do A-2 pilotado pelo Leutnant Günther Mehrens, que também lançou suas duas bombas. Quando o segundo A-2 também iniciou seu ataque, o submarino se rendeu. Mehren então pousou seu avião e, com o comandante britânico a bordo, retornou para Aalborg.

 

Variações e fim da produção

A produção em 1941 compreendeu 97 aviões, sendo a maioria do modelo A-3, que se tornaria definitivo, e que incorporava mais algumas poucas mudanças estruturais e novidades no equipamento. No ano seguinte, outros 94 Arado Ar 196A-3 foram entregues e, entre julho de 1942 e março de 1943, outros 23 foram produzidos na empresa francesa SNCA du Sud-Ouest, situada em Bourgenais (St. Nazaire).

Em 1943, a fábrica da Arado entregaria 83 aviões, a maioria sendo do modelo final de produção, denominado A-5. Este tinha um arma-mento traseiro muito mais efetivo, composto de um par de metralha doras MG81 (de 7,92mm) com montagem geminada, e dotada de nada menos que 2000 cartuchos de munição, alimentados através de uma fita metálica. Outras mudanças eram o rádio FuG141 e os instrumentos de bordo.

No verão de 1943, a fábrica da Fokker em Amsterdam (Holanda), foi subcontratada para produzir a versão A-5, sendo que foram con cluídos outros 69 aviões até o fim da produção em agosto de 1944.

Quase que a totalidade dos aviões produzidos operaram integrados às unidades costeiras, principalmente com o See Aufklärungsgrup pen (SAGr.)- Grupos de Reconhecimento Marítimo -, atuando lado a lado com o hidroavião Blöhm und Voss Bv138. Duas unidades que se destacaram foram o SAGr. 125, baseado primeiro no Mar Báltico e, depois, em Constanza, efetuando missões no Mar Negro e o SAGr. 126, sediado em Creta e outras localidades, que condu-ziram operações sobre o Mediterrâneo oriental e Bálcãs.

Um Ar196 instalado à bordo do cruzador pesado "Prinz Eugen".

Outras unidades incluíam o SAGr. 128, que atuou so-bre a parte ocidental do Canal da Mancha e Baía de Biscaia e o SAGr. 131, que efetuou missões a partir da costa ocidental da Noruega até o outono de 1944.

Outros Ar 196 ainda viram ação sobre o Mar Negro com o 101º e 102º Esquadrões de Reconhecimento Costeiro da Força Aérea Romena, bem como com o 161º Esquadrão Costeiro da Força Aérea Real Búlga-ra. A maioria destas operações cessaram no verão de 1944, como resultado do avanço soviético em direção a esses países.

Em 1940-41 a Arado também produziu um pequeno número de Ar 196B-0 com a configuração de três flutuadores. Com exceção desta característica, os aviões eram idênticos ao A-2, e serviram junto ao Bordfliegerstaffel 1./196, sediado em Wilhelmshaven. Houve projetos para a produção do Ar 196C, com alterações no equipamento de bordo e na aerodinâmica, mas nunca foram construídos.

Na sede da empresa Arado, em Warnemünde, a produção do Ar 196 encerrou-se em março de 1944, depois da entrega dos derradeiros 22 aviões. No total, foram fabricados 541 Arados Ar 196, incluindo os dez aparelhos de pré-produção da série A-0 e os cinco protótipos.


Histórico
Séries:
A,B
Categoria(s):
Hidroavião de reconhecimento e patrulhamento marítimo
Primeiro Vôo:
Maio de 1938
Primeira entrega:
Novembro de 1938 (A-0)
Agosto de 1939
Última entrega:
Março de 1944 (Alemanha)
Agosto de 1944 (Holanda)
Ficha Técnica - Ar 196A-3
Motor:
BMW 132K nove cilindros radial
Potência:
960 hp
Dimensões:
Envergadura:......................................12,40 m
Comprimento:.....................................11,00 m
Altura:.................................................04,40 m
Pesos:
Vazio:.................................................. 2.990 kg
Máximo:.............................................3.730 kg
Desempenho:
Vel. cruzeiro:...................................... 
Vel. máxima:......................................310 km/h
Vel. ascensão:.................................... 
Autonomia:.........................................1.070 km
Teto serviço:......................................7.020 m
Armamento(s):
 



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